– seis arquétipos do amor

Imagem

O amor é o bálsamo enviado pelos deuses. Quem há de negar. Entretanto, seu reverso traz desencanto, sofrimento. Fantasmas inofensivos, porque mesmo carregando na pele as marcas dos desenganos ansiamos pelo encontro amoroso em qualquer tempo e idade. Se não há escapatória, melhor decifrarmos as engrenagens desse arranjo. É o que propõe o dr. Allan G. Hunter, terapeuta e professor de literatura do Curry College, em Massachusetts, nos Estados Unidos, no livro Os Seis Arquétipos do Amor – Usando os Símbolos do Tarô e dos Contos de Fadas nos Relacionamentos Amorosos.

O Inocente. Regressemos aos primeiros meses de vida de um bebê. Aquecido pelo colo materno e alimentado pelo leite morno e nutritivo, o rebento experimenta o Éden. Conforto e segurança em doses máximas, dia após dia. Ele não só se sente amado acima de todas as coisas como acredita na força inviolável desse elo. Logo, o Inocente simboliza aquele que crê, que confia no amor do outro, tal qual um recém-nascido. “Podemos ver aspectos do Inocente na completa confiança compartilhada por casais felizes. Eles simplesmente confiam um no outro”, afirma o autor. Entenda, não vale confiar 80 ou 90% no parceiro. O padrão de pureza e credulidade desse arquétipo é mais exigente que isso. “Ou existe completa confiança ou nenhuma”, frisa o especialista. A fragilidade desse modo de se relacionar se mostra quando o indivíduo se torna refém da condescendência absoluta. “O Inocente sempre será aquele que perdoará facilmente, às vezes facilmente demais.” Se por um lado tende a ser enganado, por outro consegue enxergar a faceta positiva de pessoas e situações, numa atitude construtiva. Acontece que muito pouca gente permanece nesse estágio por muito tempo. “As pessoas crescem, enfrentam o mundo e precisam de defesas para fazer isso”, assinala o autor. Adquirir certa vigilância, ele ressalta, é o primeiro passo rumo ao amadurecimento. Mas jamais devemos sufocar a voz do Inocente, uma vez que esse arquétipo “representa a forma mais pura de amor e confiança que podemos ter”.

O Órfão.  Um belo dia, descobrimos que o mundo não é como gostaríamos que fosse. Nesse instante, o arquétipo do Órfão passa a nos reger. Nos sentimos zangados e mal compreendidos por aqueles à nossa volta simplesmente porque eles não correspondem integralmente aos nossos anseios. O que é natural,pois não somos o centro no Universo. Dessa descoberta em diante, passamos a perseguir vínculos que compensem a sensação de falta. “O órfão compreende que nem tudo é perfeito, mas mesmo assim concorda em vincular-se a outras pessoas, por segurança. Assim, procura ser ‘adotado’ por gente que considera de confiança”, esclarece o terapeuta. Essa fase é marcada pela busca de um senso de identidade construído de fora para dentro. A necessidade de se adaptar às demandas do meio torna o órfão suscetível a valores que não espelham sua verdadeira essência e, ao mesmo tempo,um ser gregário, capaz de promover a coesão num grupo ou parceria. O problema é deixar que o amor se confunda com “uma necessidade desesperada de pertencimento”, alerta Hunter, que faz a seguinte diferenciação: “Órfãos equilibrados são pessoas amorosas e devotadas. Já os desequilibrados acreditam que alguém virá para amá-los e salvá-los, tornando-os felizes”. Desapontamento na certa, já que uma única pessoa não pode nos fazer completamente felizes. Não raro, somos tomadas pela energia carente desse arquétipo. Sinal de que nossa caminhada deve prosseguir. “O ponto de mudançapara o Órfão que deseja crescer é permanecer consciente de que esse apego amoroso, essa versão do altruísmo, protegida e interessada apenas em si, não é a expressão última de quem ele pode ser”, encoraja o terapeuta.

O Peregrino.  “O Peregrino é a pessoa que opta por se afastar do conforto consolador de uma existência estabelecida e faz perguntas sobre o que mais pode ser descoberto no mundo ou em si mesmo”, define Hunter. O chamado interior pode ser um recomeço para os casais que atravessam essa fase de mãos dadas, ou seja, sentem a mesmíssima necessidade de extrair mais significado da vida. Agora, se só um cônjuge decidir se aventurar para além de seu hábitat costumeiro, o desequilíbrio é certo. “Todos nós já vimos isso. É o estereótipo da mulher que deseja maior profundidade, enquanto o homem quer que as coisas permaneçam iguais”, exemplifica o autor. A tentação de desistir da busca, incerta por excelência, e regredir ao estágio do órfão, ávido por um ninho acolhedor, é grande. Cuidado. Alguns, inclusive, são desencorajados pelo próprio parceiro ou, então, pela crença de que não foram feitos para se realizarem na esfera do amor. O melhor a fazer é se aferrar à grandiosidade do propósito que move esse arquétipo. “Um verdadeiro Peregrino espera que seu caminho o conduza a um relacionamento significativo com outra pessoa, o qual possibilite que cada parceiro atinja um nível mais elevado de crescimento, conforme prossiga o relacionamento”, atesta. A consciência acerca das próprias escolhas é a marca daquele que sai à caça de algo mais, assim como a aceitação de que esse trabalho é árduo. “O amor tem que ser capaz de crescer.” O lema desse arquétipo sintetiza sua motivação intrínseca e o mantém em seu rumo. A armadilha, aqui, é o Peregrino se identificar tanto com a busca a ponto de perder o interesse por vê-la concluída.

O Guerreiro-Amante. No estágio do Guerreiro-Amante, o indivíduo se recusa a fazer concessões. A combinação de coragem e resolução para concretizar seu projeto afetivo lhe serve de esteio. “A tarefa passa a ser equilibrar a força e a bondade amorosa, o masculino e o feminino dentro de seu eu”, destaca o terapeuta, que prossegue: “Se alguém aspira ser um Guerreiro-Amante, então deve escolher um companheiro para a vida que tenha um desenvolvimento pessoal equivalente”. O equilíbrio é vital nesse estágio. Uma ponta não pode sobressair à outra. A porção guerreira traz força e estratégia para melhor explorar os recursos internos, ao passo que a amante contribui com o idealismo, a empatia e a compaixão. “Os aspectos duplos, o masculino e o feminino, devem reconhecer um ao outro e se fundir.” É por isso que casais mutuamente influenciados por esse arquétipo tendem a viver relações duradouras.“O caminho do Guerreiro-Amante é de constante vigilância, constante crescimento e de deleite nesse crescimento”, garante o estudioso. Segundo ele, o par e fascina ao descobrir múltiplos aspectos da mesma parceria, num processo de perene mutação por meio do qual desenvolve seus “níveis pessoais de consciência e intimidade”. Integrados e comprometidos com a parceria – não sem antes realizar ajustes, dizimar mal-entendidos e suplantar frustrações–, podem ser plenamente eles mesmos na presença um do outro. O perigo de vivenciar um entrosamento tão formidável está no provável confinamento. “Talvez os parceiros se tornem tão dependentes um do outro que passem a rejeitar outras interações possíveis, que lhes pareçam inferiores à sua própria”, adverte Hunter.

O Monarca. Seguindo a linha evolutiva dos estágios arquetípicos, a figura do Monarca, que expressa o equilíbrio entre rei e rainha, masculino e feminino em franco exercício do poder, é entendida como a extensão do comprometimento amoroso do Guerreiro- Amante. Só que, enquanto este se entrega por completo ao par, o Monarca transborda seu amor para o coletivo, visando o bem maior da sociedade. Ele representa o líder, aquele que percorreu a trajetória do aprendizado terreno e espiritual e agora tem o que repartir com o mundo. “O vínculo entre governante e governado é, em sua essência, um vínculo amoroso”, afirma o autor. Na prática, quem atinge esse patamar de consciência é impelido a estender as lições do amor para além dos domínios do casal e da família gerada pelo casamento. Isso implica aceitar as diferenças, gerenciar conflitos em vez de sufocá-los, respeitar a autonomia dos que vivem ao redor, sejam eles filhos, parentes, subordinados. “Para estar no nível do Monarca e permanecer lá, a pessoa deve ter equilibrado os diferentes aspectos de si mesma, e essa tarefa é mais bem cumprida quando se está num relacionamento amoroso entre iguais”, avisa Hunter. Há, portanto, a conquista da plena interação entre o dentro, o âmbito da intimidade, e o fora, o terreno social. “Essa figura deve ter as habilidades para desenvolver uma relação íntima com o cônjuge, ao mesmo tempo em que mantém um envolvimento vital com o mundo.” Sob a influência e a orientação respeitosa desse soberano, as pessoas tendem a mostrar o que têm de melhor.

O Mago. Quando um ser humano adentra o universo do Mago, todos os seus gestos são atos de amor em si mesmos. Por se reconhecer como um ser espiritual agraciado com uma experiência humana, ele não espera em troca reconhecimento, recompensa, submissão. “Para sermos plenamente magos, temos de abrir mão de tudo o que está relacionado com a posição social, o ego e o orgulho”, sublinha o terapeuta. Verdadeiros líderes espirituais conhecem bem esse modo de se relacionar com seus semelhantes, acolhidos sem qualquer tipo de distinção. A pureza, a devoção e a confiança do Inocente voltam apulsar. Portanto, aqui, o ciclo se fecha. Entra em ação o chamado amor de Deus, que, de tão arrebatador e cristalino, parece vir de instâncias superiores. “A tarefa do Mago é abrir-se e recuperar essa inocência, trazendo-a de volta ao mundo, sem medo”, aponta ele. Só assim as pessoas poderão se unir em prol de objetivos mais elevados, como a preservação do planeta, o fim das guerras, da fome e da intolerância religiosa. Motivações bem mais profundas do que a mera busca por conforto material. O Mago ama as pessoas pela essência que carregam. “Isso significa permitir que elas sejam o que são e, ainda assim, amá-las.” O último estágio arquetípico nos apresenta ao amor como filho da liberdade absoluta. “Os outros conseguirão nos amar de modo pleno apenas quando deixarmos de tentar ser vitoriosos ou melhores ou certos. E, quando fizermos isso, nos libertaremos e passaremos a conseguir amar livremente e sermos amados.”
Texto Raphaela de C. Mello

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: