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Arquivo mensal: abril 2014

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Ter um dia de fúria é normal – e a culpa é do seu lado mais primitivo, que pode transformar uma pequena faísca em uma enorme explosão

por Melissa Becker
“É uma escalada muito rápida. A gente acaba não se reconhecendo, e, quando percebe, o resultado: dois murros na cara”, diz. Fonseca, que não costuma se envolver em brigas, reconhece que antes do episódio já não estava em um dia muito bom, perto de seu limite – do contrário, teria tido sangue-frio para deixar o esquentadinho de lado após os primeiros palavrões. Provavelmente, cruzou com outro sujeito que também estava prestes a explodir.A ira parece irracional – e, de certo modo, é mesmo. No cotidiano, surge quando nossos objetivos são bloqueados ou testemunhamos uma injustiça, diz o psicólogo social Simon Laham, autor de The Science of Sin: The Psychology of the Seven Deadlies – And Why They Are So Good for You (A Ciência do Pecado: A Psicologia dos Sete Pecados Capitais – e Por Que Eles São Tão Bons para Você, sem edição em português). Quanto mais queremos algo, mais raivosos ficamos se impedidos. São as amídalas entrando em ação. Os sentimentos raivosos nascem nessas estruturas que se localizam em uma primitiva parte do cérebro (veja página 22). Suas respostas a uma ameaça são reguladas pelo córtex, no lobo frontal, região de funções mais complexas. É ele quem escolhe se vamos argumentar, xingar ou bater – capacidade que nos diferencia dos animais, incapazes de ponderar. “Nossas áreas cerebrais ativadas são as mesmas de um urso, mas temos maior quantidade de córtex e, por isso, somos mais capazes de modular a raiva”, explica o neurocientista e professor John Fontenele Araujo, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ritmicidade, Sono, Memória e Emoção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Para garantir a preservação da espécie, a raiva funciona como um mecanismo de auto-defesa que o cérebro dispara ao detectar o que acredita ser um perigo. A agressão é uma das formas de expressar ira, mas não um sinônimo. “Na maioria das vezes, a raiva não leva à violência, e é melhor que seja evitada. Mas, se você parecer ameaçador, seu oponente vai recuar”, diz Michael Ewbank, pesquisador das bases neurais das emoções no Medical Research Council Cognition and Brain Sciences Unit, em Cambridge, na Inglaterra.

O historiador Thomas Dixon, diretor do Centro para a História das Emoções em Queen Mary, na Universidade de Londres, lembra que a ira, mal direcionada e expressa de forma violenta, sempre foi considerada pecaminosa. A raiva moderna toma novas formas, como no trânsito e até no ar – air rage é o termo em inglês para o comportamento violento de passageiros ou da tripulação em um avião, geralmente durante um voo. Fora aquela que surge da frustração e da impotência em frente à impressora que não funciona, à internet que cai, à falta de sinal no celular…

Descontrole total

Se você for do tipo pavio curto, a razão pode estar no cérebro – e na genética. A forma que os genes influenciam a raiva ainda não foi totalmente desvendada, mas a neurocientista Molly Crockett, da Universidade de Zurique, na Suíça, afirma que existem evidências de que variações em um gene (MAOA) influenciem no circuito cerebral da raiva e de seu controle.

São também os genes que desempenham papel importante nos níveis de certos neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina – ambos envolvidos na agressividade. A serotonina pode influenciar naquela conversinha entre as amídalas e o córtex pré-frontal que controlaria a raiva, diz a cientista.

Por isso, ficamos irritados quando estamos com fome ou cansados – nessas situações, ocorre uma flutuação dos níveis de serotonina. Em um estudo da Universidade de Cambridge em que a pesquisadora tomou parte, descobriu-se que quem tem uma tendência natural a se comportar agressivamente tem a comunicação ainda mais fraca entre as duas partes do cérebro após a redução do neurotransmissor – ou seja, fica mais difícil para o córtex segurar a raiva primitiva gerada pelas amídalas. Essa comunicação deficiente faz com que, em vez de respirar, ponderar e contar até 10, o sujeito se deixe dominar pela fúria (veja página 22).

Acha que a briga entre aqueles dois marmanjos começou por ter “muita testosterona junta”? Partes do cérebro envolvidas na raiva são realmente sensíveis a hormônios como esse, e, em geral, homens têm níveis mais elevados de testosterona do que mulheres, principalmente na fase reprodutiva. No entanto, John Medina, autor do livro The Genetic Inferno – Inside the Seven Deadly Sins (O Inferno Genético – Por Dentro dos Sete Pecados Capitais, sem edição em português), afirma que a testosterona pode ser capaz de agravar uma tendência agressiva já em andamento, mas não é a origem de um comportamento agressivo.

Cérebros e corpos femininos e masculinos respondem basicamente da mesma maneira quando as amídalas decidem virar a chave para o modo raiva. Homens tendem a ter atitudes mais violentas do que mulheres, mas circunstâncias diferentes podem levar a diferentes tipos de agressão, afirma o pesquisador Michael Ewbank. Elas têm o equilíbrio mental desafiado todo mês pela tensão pré-menstrual (TPM). De novo, a serotonina tem seu papel. “Fatores hormonais provocam alteração da concentração da serotonina e, por isso, o humor passa a variar de acordo com essa oscilação. Quando o estrogênio está alto, o neurotransmissor permanece mais tempo no organismo. Quando a progesterona está alta, ela destrói a serotonina mais rapidamente, e a sua falta causa os sintomas da TPM – e a fúria feminina que parece vir de lugar nenhum.

Em geral, crianças e adolescentes perdem o controle mais facilmente porque o lobo frontal – responsável pela tomada de decisão de atacar ou recuar – não está completamente desenvolvido até o fim da adolescência, lembra Ewbank. Conforme ficamos mais maduros, a possibilidade de termos ataques de cólera diminui consideravelmente. Ainda bem.
Loucura temporária

Todo mundo pode ter um dia de fúria – como o do personagem William Foster, de Michael Douglas, no filme homônimo -, com uma série de condições que levariam a esse comportamento. “É como se o córtex tivesse ido à falência, ficado incapaz nesse momento”, diz o neurocientista John Araujo. No século 18, a ira era vista como loucura temporária, afirma o historiador Thomas Dixon. Hoje, como algo que precisa ser tratado e gerenciado. No entanto, ela não é uma doença, mas uma emoção. Suas variações, sim, podem ser perigosas”, afirma o psicólogo forense Jason Jones, do Centro de Terapia Racional-Emotiva Comportamental da Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

Por anos, especialistas acreditaram que extravasar era o melhor remédio. Hoje, defende-se que essa catarse não funciona. A irritação de Caue Fonseca, lá do começo da reportagem, só lhe rendeu dois olhos roxos, que, a propósito, ficaram impunes: o agressor fez compras tranquilamente no supermercado e, quando a Polícia Militar chegou ao local, ele já estava longe. Jeffrey M. Lohr, do Departamento de Psicologia da Universidade do Arkansas (EUA) e autor de estudos sobre a raiva, afirma: “Expressar raiva provoca mais raiva, em vez de reduzi-la. O melhor é aprender como ser assertivo ou como regular suas emoções para diminuir a fúria”. Ou, como diz o clássico ditado inglês, Keep calm and carry on.
Demônio – Satanás

O hit de verões passados não deixa dúvida: na casa do Senhor não existe Satanás – e, naturalmente, não há ódio, vingança, violência, crueldade e irracionalidade. Satanás, o ilustre demônio que representa o pecado da raiva, aproveita a fagulha de ira para transformá-la numa explosão de fúria – não é à toa que o inferno está em chamas. E aí já viu: o descontrole aparece rapidamente e o pecador quebra tudo, de objetos a narizes.

Uma violenta emoção?

A palavra raiva não consta no Código Penal Brasileiro nem como atenuante, nem como agravante de pena, segundo o advogado criminalista Sergei Cobra Arbex. No entanto, a legislação considera uma “violenta emoção” atenuante de pena, se o crime é cometido após uma injustiça provocada pela vítima – mas não há um consenso. A raiva doentia pode fazer com que uma pessoa, se considerada incapaz por meio de laudo, responda por uma ação penal, mas fique isenta de pena.

Pesquisadores do King¿s College da Universidade de Londres investigaram, por meio de ressonância magnética, o cérebro de psicopatas condenados a crimes como assassinato, estupros seguidos de estrangulamento e cárcere privado. Eles encontraram uma redução significativa na conexão entre as amídalas (sim, aquelas onde a raiva nasce) e o córtex orbitofrontal, a região das tomadas de decisão. O grau de anormalidade estava relacionado ao grau da doença. Para os cientistas, essas diferenças possibilitam uma explicação biológica para a psicopatia.
Um dia de fúria
O ataque de raiva costuma durar não mais de 15 minutos. Mas muitas coisas acontecem no cérebro e no corpo

Narinas
Elas se abrem – o que permite maior entrada de oxigênio, que servirá de “combustível” para órgãos e músculos, caso precisemos lutar.

Sobrancelhas
A testa se franze e os olhos ficam menores – o que faz a fronte parecer maior e protege a visão, se partirmos para a briga. Em momentos de raiva intensa, alguns descrevem perda da visão periférica.

Mandíbula
A região fica cerrada, indicando grandes níveis de testosterona, o que serviria para diferenciar o rosto masculino do feminino ou infantil.

Dentes
Ficam à mostra – pela mesma razão dos macacos: mostrar ao inimigo que somos capazes de morder.

No cérebro
Hipotálamo Responsável pelas respostas fisiológicas: coração disparado, suor, rosto vermelho. O sangue vai mais para as mãos do que para as pernas – nos preparando para lutar, e não para correr.

Amídalas
Avaliam a reação de acordo com o que foi visto ou ouvido e decidem se você vai ficar com medo ou com raiva.

Córtex pré-frontal
Corrige possíveis erros e determina nossa reação. As respostas mais primitivas (socos, gritos) são as primeiras da lista. As mais complexas, influenciadas por questões morais, são as últimas.

Esquentadinho ou em chamas?
A ira é um pecado de diferentes graduações. Veja até que ponto pode chegar a fúria – e quando ela vira um problema

LABAREDAS DESCONTROLADAS
O grau máximo vem com desejo de destruição, e o ponto extremo seria matar alguém como expressão do ódio.

FOGO ALTO
O irado pode não agredir alguém, mas quebra o que estiver ao redor.

ALERTA VERMELHO
A raiva passa a ser excessiva quando episódios ocorrem repetitivamente, como se irritar com várias pessoas diferentes ao longo do dia.

FOGO MÉDIO
Neste estágio, a raiva não leva a piores consequências, mas uma forma negativa é a que motiva o bullying e o preconceito.

FOGO BRANDO
A irritação seria um “primeiro grau” da raiva, aquela que surge quando, em uma conversa, você defende com maior ênfase seu ponto de vista.

PODE SER SAUDÁVEL?
A raiva saudável é aquela que nos torna capazes de protestar e nos autoafirmar – sem ela, seríamos ou muito submissos ou muito explosivos.

 

Manada de raivosos
De zebras a valentões, a fúria coletiva causadora de bullyings virtuais a linchamentos vem da segurança de estar em grupo

O motorista de ônibus Edmilson dos Reis Alves passou mal enquanto dirigia. Perdeu o controle do veículo e bateu em carros e motos. Mas não foi um mal súbito que o matou. Ele morreu ao ser espancado por cerca de 20 pessoas na noite de 27 de novembro do ano passado, na zona leste de São Paulo. Até um extintor de incêndio foi usado na agressão. Esse tipo de fúria coletiva, que leva a linchamentos e confrontos, é um comportamento de causas múltiplas e ainda não totalmente compreendido pela ciência, afirma o professor John Araujo. Mas o especialista indica dois aspectos em especial.

Quando em um grupo ou em uma multidão, ficamos mais valentões, nos percebendo mais seguros para sermos mais agressivos – mesmo na natureza é assim: uma zebra não enfrenta um leão, mas um monte de zebras encararia a fera. A segunda causa envolve o comportamento de imitação: “Quando um indivíduo faz alguma coisa e outros repetem, a tendência é imitar. Você está junto a um grupo, e alguns começam a jogar pedras em um imóvel. Quando menos espera, também poderá estar repetindo o mesmo comportamento”, afirma.

Raiva da polícia foi considerada um dos combustíveis dos distúrbios ocorridos na Inglaterra, em agosto de 2011, por um estudo do jornal britânico The Guardian e da London School of Economics, publicado em dezembro. Os dois principais motivos citados pelos entrevistados que participaram do quebra-quebra pelo país como um dos fatores relevantes que motivaram confrontos e saques foram a força policial (85%) e a pobreza (86%). Os participantes alegaram ser tratados de forma diferente e injusta por policiais na hora de serem submetidos a revistas, por exemplo, e, ao tomar parte da confusão, se sentiram em um distúrbio antipolícia. O psicólogo forense Jason Jones, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, diz que o comportamento nessa onda de violência pode ter sido uma influência de poucas pessoas realmente iradas, que, em um comportamento típico de manada, levaram um grupo maior a apoiá-las. “Quando sentimos raiva em relação a algum acontecimento ou a um grupo, em vez de uma pessoa especificamente, notamos algo que tenha transgredido nosso objetivo, e nos convencemos de que essas condições, ou a vida, ou o mundo, não devem mais ser assim e não podemos mais aguentar isso”, diz. Assim acontecem as explosões coletivas em relação a um ente.

O efeito manada também se dissemina na internet. As pessoas tendem a se manifestar e a modular sua opinião de acordo com o grupo que as rodeia. “Mas sempre com uma tendência de maior agressividade e pontuação, o que não fariam no offline”, afirma Raquel Recuero, professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), que pesquisa redes sociais e comunidades virtuais. Ao mesmo tempo, tendemos a ser menos cuidadosos na rede. Normas de conduta que envolvem a conversação e a imagem de quem interage ficam relegadas a um segundo plano na rede, no qual as pessoas dizem coisas que jamais ousariam em uma situação offline. “Parte disso porque você não vê o efeito de suas palavras no outro. Além disso, há a sensação de anonimato”, diz Raquel. Por trás da tela, ficamos poderosos – sozinhos e apoiados por uma multidão, também anônima. Um prato cheio para a raiva.

 

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Estou lendo um livro chamado “Fadas no Divã”, que retrata a visão da psicanálise dos contos de fadas! Ao pesquisar sobre os autores (Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso), encontrei uma matéria da Superinteressante sobre o tema. Vale muito a pena a leitura para os “superinteressados” ou não!

Bjs

Fernanda

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A verdadeira moral da história

O segredo do sucesso dos contos de fadas é o seu poder de estimular nosso inconsciente. Entenda as entrelinhas psicológicas dos clássicos que mexem com crianças e adultos

POR TEXTO EMILIANO URBIM

Era uma vez uma aldeia onde os moradores passavam as noites contando e ouvindo histórias. As preferidas eram aquelas com enredos fabulosos, mas que despertavam sensações reais, confusas, secretas. Ao redor do fogo circulavam contos sobre bruxas e princesas, belas e feras, meninas e lobos, onde sobravam fome, medo, vingança e morte. E ao final, nem sempre feliz, alguém sempre pedia: “Conte outra vez”.

Em aldeias como essa, de histórias como essas, surgiram os contos de fadas (batizados por uma senhorinha francesa insensível ao fato de que a maioria nem fada têm). Os originais medievais eram destinados a ouvintes de todas as idades, mas, uma vez eleitos favoritos da infância burguesa, foram sendo sucessivamente amenizados até chegarem às atuais versões “censura livre”.

Essas narrativas são um patrimônio abstrato da humanidade, passado adiante via voz, livros, rádio, TV, internet – e, para quem está na faixa dos 30, vinis coloridos. “Isso é absolutamente surpreendente num mundo cada vez mais mutante”, afirma o casal Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso no livro Fadas no Divã, onde fazem uma análise psicológica das histórias infantis. “Como esses restos do passado vieram parar nas mãos da crianças de hoje?”, perguntam os psicanalistas.

Nos anos 70, o austríaco Bruno Bettelheim emplacou a tese de que os contos que sobreviveram são aqueles que mais mexem com o inconsciente de narradores e ouvintes. Uma seleção natural favoreceu as histórias que reverberam na mente, que trazem nas entrelinhas questões emocionais, sexuais, familiares, universais. “No conto de fadas, o paciente encontra soluções analisando as partes da história que dizem respeito a seus conflitos”, escreve em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Preservamos a história de Chapeuzinho não porque ela ensina a ter cuidado com estranhos, mas pelos sentimentos estranhos que ela provoca.

Nas próximas páginas, mostramos que a interpretação de clássicos como Branca de Neve, Patinho Feio e Cinderela pode ser reveladora, tanto para quem já perdeu o medo do lobo quanto para quem ainda espera pelo príncipe encantado.

Chapeuzinho Vermelho

Versão consagrada – A pedido da mãe, uma menina deve atravessar um matinho sinistro pra levar comida até a casa da vó doente. No caminho, Chapeuzinho é abordada por um lobo, que lhe indica um desvio longo enquanto pega um atalho até a casa da velhinha e a devora sem dó. Chegando lá, Chapeuzinho trava um diálogo recheado de duplos sentidos e também é comida. Eis que um caçador salva o dia, tirando avó e neta da barriga do lobo.

Outra história – Na versão compilada por Perrault em 1697, a menina e a velhinha morriam. Foram os Grimm, que, 160 anos depois, tiraram o caçador do chapéu. O final varia, mas mantém-se o sugestivo diálogo que começa com “pra que esses olhos tão grandes?” e termina com “pra te comer melhor!” Existe uma versão anterior à tradicional, que inclui canibalismo (a menina bebe o sangue e come a carne da avó), strip-tease e até sugestão de golden shower. Sim, o lobo pede que a menina urine sobre ele.

Interpretação – Uma questão recorrente é por que Chapeuzinho dá trela ao lobo? “Ela é uma criança com a ingenuidade de quem não sabe sobre o sexo. Ela pode não saber que jogo está sendo jogado, mas é inegável seu interesse em participar”, escrevem os autores de Fadas no Divã. Esse caminho interpretativo leva ao campo minado da sexualidade infantil. Segundo Freud, nossas primeiras experiências sexuais são encobertas por uma espécie de amnésia que vai até os 6 ou 8 anos. A história teria sobrevivido por usar símbolos que nos fazem pensar nessa questão. Ou seja: o conto não fala apenas sobre o perigo do desconhecido, mas sobre a perda da inocência.

Para maiores – No sexo, há adultos que agem como uma menina diante de um lobo. “Quando a vida lhes impõe um papel sexual, vão oferecer o que têm: sua ingenuidade. Ser uma assustada Chapeuzinho é até onde vai a sexualidade de quem não quer saber nada do assunto”, escreve o casal Corso.

Branca de Neve

Versão consagrada Sentenciada à morte por ser mais bela que a madrasta, Branca escapa e é acolhida por 7 anões. Mas a megera não sossega: disfarçada de bruxa, encontra a rival e lhe dá uma maçã envenenada. A jovem entra em coma, mas o beijo de um príncipe lhe devolve a vida. A madrasta é punida com a morte.

Outra história – Apenas no filme da Disney os anões ganharam personalidades distintas.

Interpretação – Em contos de fadas, madrasta é apenas um nome feio para mãe – neste caso, uma mãe que inveja a filha que vira mulher enquanto ela envelhece. Repare: o conflito só começa depois que o espelho informa que a madrasta não é mais a nº 1 do reino – a identidade feminina da adolescente Branca de Neve já está em construção. E a obra se completa com um leve toque de machismo: assim como a Bela Adormecida, ela só conquista o príncipe semimorta – ou seja, inerte, quietinha, comportada, como se espera de uma boa moça.

Para maiores – Todo namorado tem um pouco de “espelho, espelho meu”, constantemente requisitado a confirmar que, sim, a parceira é a mais linda e, não, não existe mais ninguém. E que ele a ama. Pra sempre. De verdade.

Patinho Feio

Versão consagrada – Banido do ninho por deficiência estética, o Patinho enfrenta doses variadas de rejeição administradas por humanos e animais. Ao final, entre iguais, descobre que não era um pato feio, mas um lindo cisne.

Outra história – Diferentemente da maioria dos contos de fadas, compilados do folclore europeu, este é uma criação do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875).

Interpretação – O mérito do conto é mexer com o senso de deslocamento comum a toda criança. Todo mundo, em algum momento, sente que está no lugar errado, seja a família, seja a escola, a turma, o mundo. Por outro lado, permite aos pais viver na ficção o pavor de ter o filho surrupiado.

Para maiores – Alguns carregam o “complexo de patinho feio” para além da infância, achando-se eternamente rejeitados e deslocados. Especula-se inclusive que Andersen tenha feito o conto refletindo seus problemas de auto-estima.

João e o Pé de Feijão

Versão consagrada – Em vez de vender uma vaca como sua mãe pediu, João topa com um açougueiro/engenheiro genético e troca a mimosa por feijões mágicos. Leva um esporro, mas as sementes crescem até o céu, onde João encontra um gigante, de quem rouba vários tesouros. Durante perseguição ao meliante, o grandão cai lá de cima e morre. João e a mãe vivem ricos e felizes para sempre.

Outra história – Na primeira versão (1807), João sobe aos céus para vingar o pai, um cavaleiro morto pelo gigante.

Interpretação – Cavaleiro, açougueiro, gigante: todos são faces do mesmo pai. A trajetória de João reflete o processo natural (mais para homens, menos para mulheres) de assimilar características e desejos da figura paterna na construção da própria personalidade – inclusive se distanciando um pouco da mãe.

Para maiores – Há caçulas que passam a vida tratando irmãos mais velhos como gigantes – para o bem e para o mal.

O Príncipe Sapo

Versão consagrada – Uma princesa mimada maltrata um sapo e é obrigada a dividir cama e mesa com o batráquio. Depois de um tempo, ela acaba caindo pelos encantos do bicho. E, assim que os dois se beijam, num passe de mágica, ele vira um príncipe.

Outra história A versão original não tem beijo: o sapo se transforma após ser jogado na parede.

Interpretação – Diferentemente de histórias que terminam no casamento, esta e A Bela e a Fera lidam com o complexo “depois”. O nojinho da princesa com o ser viscoso pode simbolizar o incômodo das crianças com o sexo, ou simplesmente com relacionamentos fora da família – ambos redimidos ao final do conto.

Para maiores – Essa princesa é da linhagem das “megeras domadas”, que esperneiam, mas ao fim se submetem ao papel passivo reservado a elas.

Cinderela

Versão consagrada – A madrasta e as meias-irmãs de Cinderela lhe delegam o trabalho doméstico, na esperança de que o batente a embarangue. Mas chega o baile real. Repaginada por fadas, Cinderela brilha e conquista o príncipe, que guarda da noite um sapatinho de cristal, abandonado pela bela enquanto fugia em desabalada corrida. O príncipe sai calçando todas em busca da dona do sapato, até dar com o pé de Cinderela e ambos viverem felizes para sempre.

Outra história – Há versões em que as irmãs invejosas são cegadas por aves amigas de Cinderela.

Interpretação – Na superfície temos a fantasia dos adolescentes de que a sua vida não pode ser a real: existe um destino melhor, que lhe pertence e que lhe foi roubado, simbolizado na história pelo príncipe. “Essa história permite uma empatia imediata de qualquer filho, já que cada um se sentirá demasiado injustiçado e exigido, assim como pouco amado. Acreditamos que daí provém seu sucesso”, escrevem Diana e Mário Corso. “Onde houver irmãos, haverá desigualdade de fato ou a suposição de que ela existe.” Como costuma acontecer, a figura materna é multifacetada: é a mãe bondosa que foi, a madrasta exigente e a fada que inspira sonhos. Quanto àquele sapatinho, sim, ele pode ser interpretado como um traço de fetichismo, uma dica precoce de que alguns elementos podem valer muito no jogo da sedução.

Para maiores – “A história de Cinderela é constantemente reciclada, em séries como Sex and the City e boa parte das comédias românticas”, diz Maria Tatar, folclorista da Universidade Harvard e autora de Contos de Fadas: Edição Comentada e Ilustrada. A personagem também une fantasias masculinas geralmente conflitantes: a princesa para casar e a serviçal para… bem, servir. “Cinderela persiste na fantasia feminina. Independentemente da mulher forte e capaz que ela se mostre no mundo, Cinderela será a que, na intimidade, se disponha a brincar de esconde-esconde”, afirmam os autores de Fadas no Divã.

Ilustra: First snow… Tatiana Doronin

http://super.abril.com.br/cultura/verdadeira-moral-historia-447924.shtml

- a visão do budismo sobre agressividade

Alguns dizem que a natureza básica do ser humano é agressiva, outros dizem que é gentil. Ambos têm certo grau de razão, mas entendo que a natureza básica do ser humano é gentil, porque todo mundo quer alegria, não sofrimento.

A IMPORTÂNCIA DO AMOR E DA TRANQÜILIDADE

Quando no ventre da mãe, antes de nascer, o estado tranqüilo da mãe é vital para a saúde da criança. Depois de algumas semanas de nascimento, o toque físico na criança é vital para o desenvolvimento adequado da mente.

Portanto, durante esse período — e aqui não se está falando de religião e fé — a gentileza e a bondade são vitais para a criança.

Depois, quando se trata de educar uma criança, aquelas que têm uma atmosfera gentil, de apoio, aprendem e se desenvolvem mais; as que não recebem afeto humano se desenvolvem menos. Isso mostra claramente a necessidade do amor, e de uma atmosfera afetiva.

A compaixão, o cuidado gentil, são qualidades predominantes em seres humanos. Também vemos seres humanos se expressando de modo violento, mas isso se deve ao mau uso da inteligência e ao desejo — que terminam por gerar estados mentais nada agradáveis. E esses não são aspectos mentais de nossa natureza básica.

Usualmente vemos no jornal, rádio, televisão atrocidades, atos negativos, e a partir disso concluímos que a natureza humana é negativa. E nos perguntamos por que essas coisas negativas se tornam usuais. Essa nossa reação mostra que atividades como a compaixão e o cuidado são naturais. Por isso os tomamos por habituais. O crime, o assassinato, as ações violentas são um pouco fora da natureza humana, e por isso são notícia. Na sociedade humana, as atividades de ajuda e compaixão são predominantes — e por o serem, não são notícia.

Se analisamos de perto as atividades humanas, veremos que a parte dominante das atividades humanas são as compassivas e generosas, não as agressivas. Nesta manhã vimos que a raiva e ódio são coisas que fazem mal a nossa saúde. O nosso corpo sente-se bem com emoções positivas, e sofre com as negativas.

COMO CHEGAR À NÃO VIOLÊNCIA

Para enfrentar a raiva, o ódio, o ciúme e as demais emoções negativas, temos que analisar o que são e de que forma agir em relação a eles. Hoje em dia é muito comum se falar sobre paz e não violência como uma coisa positiva. Mas qual é a linha que separa a violência da não violência? A verdadeira linha que as separa é a motivação e a resolução.

Para que se possa promover a não violência, temos que cultivar a compaixão, o senso de cuidado com os outros. Temos que controlar nossas emoções negativas. E se nós tentarmos suprimir essas emoções à força, não conseguiremos.

O controle está ligado a conhecer, analisar essas emoções e, com base nessa análise, escolher um caminho diferente. Se você tem o objetivo de ser uma pessoa com potencial de ajudar os outros, será necessário ter uma atitude perante um dos fatores que mais bloqueiam nossa ação positiva nesse sentido: a raiva e o ódio. Terá que ter uma atitude capaz de lidar com esses sentimentos. E o antídoto mais eficaz contra eles é a paciência.

OS MALEFÍCIOS DA RAIVA

Que benefício a raiva pode trazer? Às vezes pensamos que ela vem em nosso socorro: em uma situação trágica, a raiva parece nos dar mais coragem e energia. Sob essa perspectiva, seria algo que nos ajudaria a superar uma situação difícil.

Mas a energia que vem da raiva é cega, não tem nenhuma sabedoria, e traz o potencial de fazer com que você se auto-destrua. A raiva bloqueia nossa capacidade de discernimento, e cega nossa inteligência.

Por exemplo: às vezes perdemos a cabeça e dizemos palavras absurdas, depois nos sentimos envergonhados, temos vergonha do que dissemos, de nossas palavras impensadas. No momento em que a raiva tomou conta, perdemos a capacidade de pensar e de discernir.

A raiva também não faz bem a nossa saúde. Algumas vezes, quando queremos atingir um inimigo, deixamos a raiva nos guiar. Não é certo que conseguiremos atingir o inimigo, mas uma coisa é certa: prejudicaremos a nós mesmos.

Se temos um inimigo que resolve nos perturbar, quando reagimos estamos deixando que a situação continue a se desenvolver. E, mesmo depois que terminou, continuamos a sentir raiva — deixando que a situação nos perturbe mesmo depois de terminada. Se, no entanto, temos paciência, a situação irá acabar por si mesma.

A raiva causa dor de estômago, mal estar, em nós. E o inimigo pode até se regozijar com isso.

Temos que tomar atitudes de uma maneira pensada, sem perder a paz de espírito. Aqueles que tem alguma prática de compaixão e tolerância conseguem fazê-lo muito bem. Vários monges tibetanos que estiveram em prisões chinesas, alguns por muito tempo. Os que conseguiram atravessar essa situação de forma menos traumática foram os que mais cultivavam uma atitude compassiva.

Todos eles passaram por tortura física, mas os mais compassivos sofreram muito menos com a tortura. Um monge que ficou 18 anos em uma prisão, em uma ocasião em que conversávamos, me falava sobre a vida na prisão. Ele me disse que em algumas ocasiões esteve em grande perigo. E eu perguntei: “que tipo de perigo”? Ele me respondeu: “perigo de perder a compaixão pelos chineses”. Isso mostra o quanto a paciência e a tolerância são importantes. Elas não são fraquezas, e sim um sinal de fortaleza interior.

Se você pratica a compaixão, eventualmente você pode até desenvolver algum grau de gratidão pelo seu inimigo, porque só através da prática da tolerância e paciência se manifesta a compaixão.

E para praticar a paciência e a tolerância você tem que enfrentar situações difíceis. Como praticar tolerância diante de um Buda? Para aprender tolerância e paciência temos que exerce-las. Portanto, o inimigo é o seu mestre, e o ajuda a desenvolver essas qualidades.

Algumas vezes temos a noção de que a prática da paciência e tolerância significa nos curvarmos diante dos outros, mas não é isso. Estou falando de não deixarmos a raiva nos dominar, não de submissão.

COMO LIDAR COM A RAIVA

Como lidar com a raiva? Há diferentes tipos e níveis de raiva. Algumas são mais razoáveis, como a raiva motivada pela compaixão — ela pode nos levar a ficar irados com uma pessoa, e há razão para isso. Há no entanto outros tipos de raiva que não têm uma base na realidade. Surgem na mente como uma projeção de um estado mental negativo.

Há também diferentes graus de intensidade. Algumas raivas são mais intensas, outras menos. Dependendo do grau e do tipo, se adotam medidas diferentes.

Quando a raiva é mais branda, ao percebermos que está para vir, devemos lembrar o caráter perturbador dela, e então seremos capazes de controlá-la. No caso de uma raiva muito violenta, é muito difícil pensar em medidas preventivas como no caso de uma raiva mais branda. Então o melhor é neutraliza-la pensando em outros assuntos, para ao menos não deixa-la tomar conta. E, à medida que nos tornamos mais habilidosos, podemos adotar diferentes tipos de contra-ação.

Um outro tipo de prática é destinado à raiva que nos é causada por desastres naturais, tragédias. Então temos que olhar o problema de diferentes ângulos.

No meu caso, em que perdi meu país, vejo que isso trouxe uma oportunidade de encontrar muita gente e repartir experiências. Qualquer evento tem dois aspectos. Algo que parece muito ruim quando se está com raiva, pode ter aspectos benéficos.

Outro método é tentar olhar os eventos à distância. Vistos dessa nova perspectiva, os problemas ficam menores. Se olhamos muito de perto, parecem incontroláveis. Devo pensar “esse não é somente o meu caso, mas há muitos outros”. Isso coloca as coisas em perspectiva.

Quando se tenta perceber as coisas de uma perspectiva mais ampla, se vê de forma diferente. Então, se abre um novo espaço para um novo sentimento, uma nova atitude. Isso revela a importância do estado mental.

Para se desenvolver a compaixão inamovível e sem preconceitos, é fundamental ter uma atitude correta frente aos inimigos. Assim, os budistas adotam a seguinte estratégia para desenvolver a compaixão sem preconceitos: Recuam.

Recue você também. Recue da proximidade dos sentimentos, da proximidade dos amigos e da distância dos inimigos. Adote a equanimidade. O apego aos amigos e o desagrado dos inimigos são um entrave.

Quando se olha com equanimidade, vemos que todos os seres querem a felicidade, querem se livrar do sofrimento. E quando percebemos isso, podemos chegar à compaixão.

Entrevista com Dalai Lama
Ilustração: Ahmad Mir

- corações valentes

Se você acha que coragem é apenas impulso emocional e ausência de medo, vale a pena conhecer as últimas pesquisas da área da neurobiologia sobre esse tema. E um dos grandes estudiosos do assunto é justamente o neurocientista e psicólogo clínico brasileiro Julio Peres. Ao longo de sua carreira, Peres especializou-se na superação de traumas – isto é, no exercício de estimular a coragem em seus pacientes e de ensiná-los a superar seus medos. A novidade no assunto é que ele fez um mapeamento de como se dá essa superação por meio de tomografias computadorizadas que mostram os efeitos da psicoterapia em pessoas traumatizadas. E você vai cair de costas: a principal área estimulada é o córtex pré-frontal, a região ligada ao intelecto e ao planejamento de ações, e não a amígdala, uma estrutura cerebral correlacionada com o impulso emocional, a agressividade e o temor. Quem diria, a coragem é uma estratégia mental para superar o medo! Se a crença popular diz que a coragem é uma emoção nascida do coração, a ciência diz que ela é também resultado do raciocínio e capacidade de julgamento das variáveis disponíveis.

A presença do medo

Alguém aí tem ideia da etimologia da palavra covarde? Vem do francês antigo, coart, hoje couard, ou cauda arqueada – o popular rabo entre as pernas. A gente leva uma bordoada daquelas da vida e fica assim, igual a um cachorrinho, com o focinho baixo e o rabo encostado na barriga. Além de ficar com um baita medo de erguer a cabeça outra vez. Vai que lá vem bordoada de novo… É assim que estagnamos. “Procurar ajuda já é o primeiro ato de coragem. Conversar, se expor, desabafar. Acolher esse sentimento de não adequação, esse medo de ousar”, afirma Peres. “Um trauma nos congela no tempo: não conseguimos emergir daquela situação e dar o primeiro passo para ultrapassá-la no presente”.

Mas existem vários recursos terapêuticos para isso. Um deles, por exemplo, envolve os sonhos. Mais de 60% das pessoas com traumas que, no fundo, são grandes medos têm pesadelos com desagradável frequência. É possível, então, dar um desfecho diferente para os sonhos.

Outro recurso é a exposição à situação, passo a passo. No caso de alguém que sofreu um acidente e tem medo de dirigir de novo, por exemplo, a situação pode ser reconstruída no consultório, com apoio psicológico. E, na vida real, a pessoa é estimulada a voltar a dirigir: primeiro como passageiro, ao lado de um motorista em quem tenha confiança, depois tomando a direção, mas ainda com a pessoa ao lado. E depois, num curto trecho, sozinha. Eliminam-se também as mesmas condições do dia do acidente, como um clima chuvoso, baixa luminosidade, estrada ruim, alta velocidade. Aos poucos, incorporam-se outras possibilidades ao cenário. Costuma funcionar. A pessoa pode estar ainda aflita e temerosa, mas a coragem de enfrentar a situação temível já é um passo para ultrapassar os traumas. A lição de ouro dessa história é: não existe coragem sem medo. Se não tiver medo, não é coragem.

Ousados até que ponto?

Na classificação dos quatro grandes grupos comportamentais humanos realizada pela antropóloga americana Helen Fischer no livro Why Him? Why Her? (“Por que ele? Por que ela?”, sem edição brasileira), o pessoal mais atirado é conhecido como “exploradores”. Gente criativa, inteligente, confiante, generosa, otimista. São pessoas um pouco volúveis, é verdade, mas se a estabilidade – seja na profissão, seja nas relações amorosas – oferecer espaço suficiente para a surpresa, o movimento e a inventividade, são capazes de permanecerem fiéis e sossegados por um bom tempo, pela vida toda, até. Segundo Helen, os exploradores, portanto, são os mais propensos a tomar atitudes ousadas – para o bem e também para o mal. Não é raro um explorador, principalmente dos mais afoitos, se esborrachar na vida – e com a mesma desenvoltura se recuperar à custa de seu eterno entusiasmo. A imensa maioria dos exploradores poderia assinar com orgulho o mesmo epitáfio que o poeta Pablo Neruda escolheu para si mesmo: “Confesso que vivi”. Eles realmente amam a vida, se divertem com ela e a vivem intensamente, mesmo com suas feridas, raspões e cortes.

Mas e quem não está nesse grupo? Para estabelecer e classificar esses grandes tipos de comportamento humano, Fischer pesquisou características gerais da personalidade e também a dosagem de hormônios (como progesterona, testosterona e oxitocina) dos seus 40 mil voluntários. Chegou a quatro classificações comportamentais: exploradores, construtores, dirigentes e negociadores. É o que vamos ver em seguida, sem esquecer o que foi dito: que todos nós temos coragem, e que apenas vamos nos diferenciar na maneira de exercê-la.

Construir, negociar

Bem, os construtores são o que Helen chama de “os pilares da sociedade”. São pessoas responsáveis, dedicadas, fiéis a seus princípios e muito ligadas às metas que estabeleceram para suas vidas. São mais tradicionais e procuram pessoas igualmente conservadoras para se relacionar. Permanecem longo tempo nos empregos, ou nos casamentos, e olham com bastante desconfiança para o novo ou diferente. Gostam das coisas como estão e desejam que elas se mantenham assim, mesmo quando não estão lá essas coisas. Podem ser corajosas, principalmente quando lutam pelo que acreditam, porém são cautelosas e menos impulsivas.

Já os dirigentes são líderes naturais. Ambiciosos, persistentes, estrategistas. Arriscam-se conscientemente diante da possibilidade de um lucro maior ou um ganho inesperado. Não têm tanto medo de ultrapassar limites, principalmente se a recompensa for muito tentadora. São motivados pelo sucesso, gostam de ter objetivos claros e demonstram bastante consideração por seus aliados mais importantes. São racionais e bastante concretos com o que desejam no futuro. Valorizam a amizade e a cumplicidade mais do que o amor. Sua coragem geralmente é fruto de uma análise criteriosa, mas também sabem se atirar, pois reconhecem com rapidez uma boa oportunidade.

Os negociadores são éticos, valorizam o bem estar geral e dão bastante importância às questões humanitárias. Pessoalmente, afetuosos, gentis, empáticos com os sentimentos dos outros e bem articulados ao expressar suas próprias ideias. Apreciam relacionamentos profundos e não dão muito valor à vida social. Têm um modo de pensar eclético, dinâmico, abrangente e por isso mesmo são mestres na arte da negociação: o ideal para eles é que tudo chegue a um bom termo sem grandes conflitos. São corajosos e se arriscam principalmente quando o benefício é geral – e não apenas particular.

Para se encher de coragem, além de procurar estímulo e amparo nos outros, fortaleça-se com leituras inspiradoras, uma alimentação energética, exercícios físicos de aterramento, terapia. Traga força e vitalidade para seu corpo, mente e espírito, cerque-se de amigos que possam lhe dar sustentação nas suas decisões. Respire fundo, levante a cabeça e vá fundo.

Artigo retirado do site vida simples
http://vidasimples.abril.com.br/

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Sentir-se vulnerável não é fácil nem agradável. O ser humano tem tendência a evitar emoções que não são agradáveis de sentir, mas quando bloqueamos essas emoções, também bloqueamos as que nos fazem sentir bem, como a alegria, o gozo ou a gratidão.
Ao nos encorajarmos a nos mostrar tal como somos, na profundidade e com toda nossa vulnerabilidade; passamos a sentir o gozo e a gratidão; nos encoraja a sermos vulneráveis, já que a vulnerabilidade pode ser o núcleo da vergonha, do medo e da luta por sermos merecedores, mas também é onde nasce a paixão, a criatividade, o sentimento de pertencer e o amor.

 

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Abaixo segue um trecho da minha monografia – GESTALT E ARTETERAPIA – do curso de formação em Gestalt Terapia do Instituto de Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo sob a orientação da professora Fatima Caldas.

O GESTALT ARTETERAPEUTA

O Gestalt Arteterapeuta é um profissional que integra a arteterapia e a abordagem gestáltica. Para isso é necessário o respeito e genuína curiosidade pela singularidade de cada um, assim como uma postura não-interpretativa, de observação e a crença no poder da atividade expressiva como processo integrador e fonte de aprendizagem sobre si mesmo.

Esse tipo de terapeuta adapta a melhor linguagem artística e métodos de uso do material de arte guiado pelas necessidades reias dos clientes; para isso acontecer, a experiência de arte precisa ser através de uma relação EU-TU – (cliente-terapeuta), incluindo o cliente como agente ativo que sabe, com certo nível de awareness do que ele necessita. O Gestalt Arteterapeuta facilita a awareness do participante, de modo que ele possa, então encontrar o melhor modo de trabalhar para seu crescimento pessoal por intermédio da arte.

A fantasia tem um papel importante no trabalho do Gestalt Arteterapeuta com pessoas em processo. Ela pode ser usada como um modo de expandir e explorar personalidade. A introdução a fantasia como um caminho para descobrir a realidade, é devido a grande área de atividade na fantasia, que exige tanto da nossa excitação, da nossa energia e da nossa força de vida que deixa muito pouca energia para estar em contato com a realidade. Para ajudar uma pessoa a estar em sua totalidade, o terapeuta precisa se dar conta do que é mera fantasia e irracionalidade, e onde o cliente é tocado e o que o toca. Se o Gestalt Arteterapeuta trabalha e esgota essa zona intermediária da fantasia, pode levar o cliente a experiência do despertar, o que o leva a estar inteiro novamente.

Esse processo consiste em pedir para o cliente mergulhar em seu mundo de fantasia e representar por meio da arte o que encontram lá, assim esgota essa área e olha os seus conteúdos. Frequentemente, esse é o primeiro passo para adquirir uma nova síntese criativa de dois velhos inimigos, a ilusão e a realidade:

“Em vez de ficarmos divididos entre a ilusão (maia) e a realidade, podemos integrá-las, e se a ilusão e a realidade estiverem integradas, chamamos isso de arte. A grande arte é real e, ao mesmo tempo, uma ilusão. A fantasia pode ser criativa, mas é criativa somente se você tem a fantasia, qualquer que seja, no agora”. – Fritz Perls    

O Arteterapeuta Gestáltico se foca nos movimentos do trabalho de arte realizado pelo cliente; motivando-o a perceber ativamente o que ocorre nas linhas, formas, texturas, cores e movimentos. O desejo é de que o paciente experiêncie as formas que cria e que torne esta experiência parte de sua consciência organísmica. Arteterapeutas Gestálticos trabalham para ativar em cada cliente o melhor potencial para que percebam suas necessidades e recursos em suas próprias mensagens visuais.

O paciente também pode falar em primeira pessoa como se ele fosse seu próprio desenho ou trabalhos de arte, enfatizando a descrição a partir de linguagem da forma de seus trabalhos. Pode-se trabalhar também com transposição de linguagens expressivas, solicitando ao paciente que represente as linhas, as formas e as composições de seus trabalhos de arte por sons, gestos e movimentos, enriquecendo o processo de autoconhecimento com o imediatismo das percepções sensoriais e cinestésicas.