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- a visão do budismo sobre agressividade

Alguns dizem que a natureza básica do ser humano é agressiva, outros dizem que é gentil. Ambos têm certo grau de razão, mas entendo que a natureza básica do ser humano é gentil, porque todo mundo quer alegria, não sofrimento.

A IMPORTÂNCIA DO AMOR E DA TRANQÜILIDADE

Quando no ventre da mãe, antes de nascer, o estado tranqüilo da mãe é vital para a saúde da criança. Depois de algumas semanas de nascimento, o toque físico na criança é vital para o desenvolvimento adequado da mente.

Portanto, durante esse período — e aqui não se está falando de religião e fé — a gentileza e a bondade são vitais para a criança.

Depois, quando se trata de educar uma criança, aquelas que têm uma atmosfera gentil, de apoio, aprendem e se desenvolvem mais; as que não recebem afeto humano se desenvolvem menos. Isso mostra claramente a necessidade do amor, e de uma atmosfera afetiva.

A compaixão, o cuidado gentil, são qualidades predominantes em seres humanos. Também vemos seres humanos se expressando de modo violento, mas isso se deve ao mau uso da inteligência e ao desejo — que terminam por gerar estados mentais nada agradáveis. E esses não são aspectos mentais de nossa natureza básica.

Usualmente vemos no jornal, rádio, televisão atrocidades, atos negativos, e a partir disso concluímos que a natureza humana é negativa. E nos perguntamos por que essas coisas negativas se tornam usuais. Essa nossa reação mostra que atividades como a compaixão e o cuidado são naturais. Por isso os tomamos por habituais. O crime, o assassinato, as ações violentas são um pouco fora da natureza humana, e por isso são notícia. Na sociedade humana, as atividades de ajuda e compaixão são predominantes — e por o serem, não são notícia.

Se analisamos de perto as atividades humanas, veremos que a parte dominante das atividades humanas são as compassivas e generosas, não as agressivas. Nesta manhã vimos que a raiva e ódio são coisas que fazem mal a nossa saúde. O nosso corpo sente-se bem com emoções positivas, e sofre com as negativas.

COMO CHEGAR À NÃO VIOLÊNCIA

Para enfrentar a raiva, o ódio, o ciúme e as demais emoções negativas, temos que analisar o que são e de que forma agir em relação a eles. Hoje em dia é muito comum se falar sobre paz e não violência como uma coisa positiva. Mas qual é a linha que separa a violência da não violência? A verdadeira linha que as separa é a motivação e a resolução.

Para que se possa promover a não violência, temos que cultivar a compaixão, o senso de cuidado com os outros. Temos que controlar nossas emoções negativas. E se nós tentarmos suprimir essas emoções à força, não conseguiremos.

O controle está ligado a conhecer, analisar essas emoções e, com base nessa análise, escolher um caminho diferente. Se você tem o objetivo de ser uma pessoa com potencial de ajudar os outros, será necessário ter uma atitude perante um dos fatores que mais bloqueiam nossa ação positiva nesse sentido: a raiva e o ódio. Terá que ter uma atitude capaz de lidar com esses sentimentos. E o antídoto mais eficaz contra eles é a paciência.

OS MALEFÍCIOS DA RAIVA

Que benefício a raiva pode trazer? Às vezes pensamos que ela vem em nosso socorro: em uma situação trágica, a raiva parece nos dar mais coragem e energia. Sob essa perspectiva, seria algo que nos ajudaria a superar uma situação difícil.

Mas a energia que vem da raiva é cega, não tem nenhuma sabedoria, e traz o potencial de fazer com que você se auto-destrua. A raiva bloqueia nossa capacidade de discernimento, e cega nossa inteligência.

Por exemplo: às vezes perdemos a cabeça e dizemos palavras absurdas, depois nos sentimos envergonhados, temos vergonha do que dissemos, de nossas palavras impensadas. No momento em que a raiva tomou conta, perdemos a capacidade de pensar e de discernir.

A raiva também não faz bem a nossa saúde. Algumas vezes, quando queremos atingir um inimigo, deixamos a raiva nos guiar. Não é certo que conseguiremos atingir o inimigo, mas uma coisa é certa: prejudicaremos a nós mesmos.

Se temos um inimigo que resolve nos perturbar, quando reagimos estamos deixando que a situação continue a se desenvolver. E, mesmo depois que terminou, continuamos a sentir raiva — deixando que a situação nos perturbe mesmo depois de terminada. Se, no entanto, temos paciência, a situação irá acabar por si mesma.

A raiva causa dor de estômago, mal estar, em nós. E o inimigo pode até se regozijar com isso.

Temos que tomar atitudes de uma maneira pensada, sem perder a paz de espírito. Aqueles que tem alguma prática de compaixão e tolerância conseguem fazê-lo muito bem. Vários monges tibetanos que estiveram em prisões chinesas, alguns por muito tempo. Os que conseguiram atravessar essa situação de forma menos traumática foram os que mais cultivavam uma atitude compassiva.

Todos eles passaram por tortura física, mas os mais compassivos sofreram muito menos com a tortura. Um monge que ficou 18 anos em uma prisão, em uma ocasião em que conversávamos, me falava sobre a vida na prisão. Ele me disse que em algumas ocasiões esteve em grande perigo. E eu perguntei: “que tipo de perigo”? Ele me respondeu: “perigo de perder a compaixão pelos chineses”. Isso mostra o quanto a paciência e a tolerância são importantes. Elas não são fraquezas, e sim um sinal de fortaleza interior.

Se você pratica a compaixão, eventualmente você pode até desenvolver algum grau de gratidão pelo seu inimigo, porque só através da prática da tolerância e paciência se manifesta a compaixão.

E para praticar a paciência e a tolerância você tem que enfrentar situações difíceis. Como praticar tolerância diante de um Buda? Para aprender tolerância e paciência temos que exerce-las. Portanto, o inimigo é o seu mestre, e o ajuda a desenvolver essas qualidades.

Algumas vezes temos a noção de que a prática da paciência e tolerância significa nos curvarmos diante dos outros, mas não é isso. Estou falando de não deixarmos a raiva nos dominar, não de submissão.

COMO LIDAR COM A RAIVA

Como lidar com a raiva? Há diferentes tipos e níveis de raiva. Algumas são mais razoáveis, como a raiva motivada pela compaixão — ela pode nos levar a ficar irados com uma pessoa, e há razão para isso. Há no entanto outros tipos de raiva que não têm uma base na realidade. Surgem na mente como uma projeção de um estado mental negativo.

Há também diferentes graus de intensidade. Algumas raivas são mais intensas, outras menos. Dependendo do grau e do tipo, se adotam medidas diferentes.

Quando a raiva é mais branda, ao percebermos que está para vir, devemos lembrar o caráter perturbador dela, e então seremos capazes de controlá-la. No caso de uma raiva muito violenta, é muito difícil pensar em medidas preventivas como no caso de uma raiva mais branda. Então o melhor é neutraliza-la pensando em outros assuntos, para ao menos não deixa-la tomar conta. E, à medida que nos tornamos mais habilidosos, podemos adotar diferentes tipos de contra-ação.

Um outro tipo de prática é destinado à raiva que nos é causada por desastres naturais, tragédias. Então temos que olhar o problema de diferentes ângulos.

No meu caso, em que perdi meu país, vejo que isso trouxe uma oportunidade de encontrar muita gente e repartir experiências. Qualquer evento tem dois aspectos. Algo que parece muito ruim quando se está com raiva, pode ter aspectos benéficos.

Outro método é tentar olhar os eventos à distância. Vistos dessa nova perspectiva, os problemas ficam menores. Se olhamos muito de perto, parecem incontroláveis. Devo pensar “esse não é somente o meu caso, mas há muitos outros”. Isso coloca as coisas em perspectiva.

Quando se tenta perceber as coisas de uma perspectiva mais ampla, se vê de forma diferente. Então, se abre um novo espaço para um novo sentimento, uma nova atitude. Isso revela a importância do estado mental.

Para se desenvolver a compaixão inamovível e sem preconceitos, é fundamental ter uma atitude correta frente aos inimigos. Assim, os budistas adotam a seguinte estratégia para desenvolver a compaixão sem preconceitos: Recuam.

Recue você também. Recue da proximidade dos sentimentos, da proximidade dos amigos e da distância dos inimigos. Adote a equanimidade. O apego aos amigos e o desagrado dos inimigos são um entrave.

Quando se olha com equanimidade, vemos que todos os seres querem a felicidade, querem se livrar do sofrimento. E quando percebemos isso, podemos chegar à compaixão.

Entrevista com Dalai Lama
Ilustração: Ahmad Mir

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Sentir-se vulnerável não é fácil nem agradável. O ser humano tem tendência a evitar emoções que não são agradáveis de sentir, mas quando bloqueamos essas emoções, também bloqueamos as que nos fazem sentir bem, como a alegria, o gozo ou a gratidão.
Ao nos encorajarmos a nos mostrar tal como somos, na profundidade e com toda nossa vulnerabilidade; passamos a sentir o gozo e a gratidão; nos encoraja a sermos vulneráveis, já que a vulnerabilidade pode ser o núcleo da vergonha, do medo e da luta por sermos merecedores, mas também é onde nasce a paixão, a criatividade, o sentimento de pertencer e o amor.

 

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Abaixo segue um trecho da minha monografia – GESTALT E ARTETERAPIA – do curso de formação em Gestalt Terapia do Instituto de Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo sob a orientação da professora Fatima Caldas.

O GESTALT ARTETERAPEUTA

O Gestalt Arteterapeuta é um profissional que integra a arteterapia e a abordagem gestáltica. Para isso é necessário o respeito e genuína curiosidade pela singularidade de cada um, assim como uma postura não-interpretativa, de observação e a crença no poder da atividade expressiva como processo integrador e fonte de aprendizagem sobre si mesmo.

Esse tipo de terapeuta adapta a melhor linguagem artística e métodos de uso do material de arte guiado pelas necessidades reias dos clientes; para isso acontecer, a experiência de arte precisa ser através de uma relação EU-TU – (cliente-terapeuta), incluindo o cliente como agente ativo que sabe, com certo nível de awareness do que ele necessita. O Gestalt Arteterapeuta facilita a awareness do participante, de modo que ele possa, então encontrar o melhor modo de trabalhar para seu crescimento pessoal por intermédio da arte.

A fantasia tem um papel importante no trabalho do Gestalt Arteterapeuta com pessoas em processo. Ela pode ser usada como um modo de expandir e explorar personalidade. A introdução a fantasia como um caminho para descobrir a realidade, é devido a grande área de atividade na fantasia, que exige tanto da nossa excitação, da nossa energia e da nossa força de vida que deixa muito pouca energia para estar em contato com a realidade. Para ajudar uma pessoa a estar em sua totalidade, o terapeuta precisa se dar conta do que é mera fantasia e irracionalidade, e onde o cliente é tocado e o que o toca. Se o Gestalt Arteterapeuta trabalha e esgota essa zona intermediária da fantasia, pode levar o cliente a experiência do despertar, o que o leva a estar inteiro novamente.

Esse processo consiste em pedir para o cliente mergulhar em seu mundo de fantasia e representar por meio da arte o que encontram lá, assim esgota essa área e olha os seus conteúdos. Frequentemente, esse é o primeiro passo para adquirir uma nova síntese criativa de dois velhos inimigos, a ilusão e a realidade:

“Em vez de ficarmos divididos entre a ilusão (maia) e a realidade, podemos integrá-las, e se a ilusão e a realidade estiverem integradas, chamamos isso de arte. A grande arte é real e, ao mesmo tempo, uma ilusão. A fantasia pode ser criativa, mas é criativa somente se você tem a fantasia, qualquer que seja, no agora”. – Fritz Perls    

O Arteterapeuta Gestáltico se foca nos movimentos do trabalho de arte realizado pelo cliente; motivando-o a perceber ativamente o que ocorre nas linhas, formas, texturas, cores e movimentos. O desejo é de que o paciente experiêncie as formas que cria e que torne esta experiência parte de sua consciência organísmica. Arteterapeutas Gestálticos trabalham para ativar em cada cliente o melhor potencial para que percebam suas necessidades e recursos em suas próprias mensagens visuais.

O paciente também pode falar em primeira pessoa como se ele fosse seu próprio desenho ou trabalhos de arte, enfatizando a descrição a partir de linguagem da forma de seus trabalhos. Pode-se trabalhar também com transposição de linguagens expressivas, solicitando ao paciente que represente as linhas, as formas e as composições de seus trabalhos de arte por sons, gestos e movimentos, enriquecendo o processo de autoconhecimento com o imediatismo das percepções sensoriais e cinestésicas.

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‎”Se você sofre, não é porque as coisas são impermanentes. É porque você crê que as coisas são permanentes…

Quando uma flor morre, não sofremos muito, porque entendemos que as flores são impermanentes. Mas você não pode aceitar a impermanência de uma pessoa querida, e sofre profundamente quando ela morre. Se você olhar a impermanência em profundidade, fará o melhor que puder para fazer essa pessoa feliz agora. Consciente da impermanência, você se torna positivo, amoroso e sábio. Impermanência é boa notícia. Sem impermanência nada seria possível. Com impermanência toda porta é aberta para a mudança. Em lugar de lastimar, deveríamos dizer: Longa vida para a impermanência. Impermanência é um instrumento para nossa liberação.”

Thich Nhat Hanh

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Joseph Goldstein:
Aprender a viver em um espaço de amizade e amor requer paciência e constância. Com muita frequência, caímos de volta nos padrões costumeiros de nos sentir perturbados, sentir irritação, raiva e inimizade. Mas esses estados também podem ser para nós como um sino de alerta para a consciência plena, nos lembrando de investigar em vez de se afogar nesses sentimentos.
Thomas Merton sabia que passar por situações difíceis é uma parte essencial da jornada espiritual. Ele escreveu:

“Oração e amor são aprendidos no momento em que orar se tornou impossível e o coração se transformou em pedra.”

“One Dharma” (loc. 1741)
(traduzido no Brasil como “Dharma – O caminho da libertação”)