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filosofia

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Se fores realmente humilde, ascenderás ao te ajoelhares diante do que sabes ser maior do que ti.
Se tua alma for realmente corajosa, vencerá fazendo concessões sem, no entanto, negligenciar sequer por um instante os princípios sem os quais tudo o mais degringolaria.
Se utilizares o discernimento tua vitória estará assegurada, porque conhecerás com exatidão tudo aquilo que precisas deixar atrás para sempre.
Humildade, coragem e discernimento, estas são tuas verdadeiras armas, com elas terás de te abrir passagem pois, mesmo que tua luta não derrame sangue não é por isso menos violenta, o campo de batalha e subjetivo e não há descanso para ti.
Atualiza, por isso, o bom humor, pois esse é capaz de substituir com dignidade as experiências trágicas e atemorizantes.
Tu és maior do que elas, tua vitória está assegurada.

– Oscar Quiroga

Por Hellen Reis Mourão

Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada.

Podemos dividir o filme Malévola em duas partes. Na primeira o filme nos apresenta dois reinos distintos e em guerra: o reino de Moors, onde vivem criaturas míticas, incluindo a fada Malévola, e o reino dos humanos. Essa divisão representa uma clara divisão entre o inconsciente, onde habitam os arquétipos e a consciência, no reino dos humanos.

Na primeira parte do filme temos as seguintes figuras, o rei velho, Malévola e Stefan, o jovem pelo qual a protagonista se apaixona.

O rei ambicioso que está para morrer precisa escolher um sucessor digno para o trono. Nota-se que no reino dos humanos não há uma figura feminina expressiva. Não vemos rainha e o rei apenas cita a sua filha. Isto demonstra que a atitude da consciência encontra-se extremamente unilateral, desequilibrada.

O rei simbolicamente incorpora o princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico de toda a nação. O rei pode ser considerado um símbolo do Self manifestado na consciência coletiva. E esse símbolo, conforme Von Franz (2005) tem necessidadede renovação constante, de compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o perigo de se tornar uma fórmula morta — um sistema e uma doutrina esvaziados de seu significado e tornar-se uma fórmula puramente exterior.

A atitude unilateral, então, desse reino é a ênfase no Logos. Não há feminino, não há Eros, não há relacionamento com o irracional. E onde falta o amor o poder se instala, por isso, deve-se escolher um novo rei para a renovação.

Entre os pretendentes ao trono está Stephan, que foi o amor de Malévola na infância. A ele, a fada entregou seu coração. Entretanto, Stephan a trai. Movido pelo poder e ambição, ele corta suas asas e as entrega ao rei. Garantindo então seu lugar como novo regente. E assim, o elemento feminino ainda não pode ser resgatado, a atitude unilateral permanece.

Essa atitude é comum em muitos homens, que movidos pelo medo de seu inconsciente, “cortam as asas” de sua mulher. Cortando sua independência, seu progresso profissional e até suas amizades. Eles se apresentam de forma amorosa, prometendo amor verdadeiro, mas visam o poder sobre elas.

Dessa forma, assim como Stephan, eles traem sua anima, traem sua própria alma. Malévola que era a protetora de Moor pode ser considerada a protetora do reino do inconsciente. Uma representação da anima.

Conforme Carl Jung, a anima é responsável por fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente do homem. Ela é o guia dele, seu psicopompo. É uma figura arquetípica que contém todas as experiências do homem com a mulher através de toda a história da humanidade, e por meio dela o homem pode compreender e a natureza da mulher.

Malévola transitava entre os dois mundos e executava esse papel. O fato de possuir asas é uma clara alusão ao deus grego Hermes, com suas sandálias aladas. Hermes era o deus mensageiro dos gregos. O único que podia transitar entre todos os mundos. Uma imagem arquetípica dopsicopompo.

Então, quando Stephan corta suas asas, ela perde essa função de guia e ponte e fica renegada ao inconsciente. Outro símbolo digno de nota são seus chifres. O chifre representa virilidade, força, poder e fertilidade. Ou seja, ela é a responsável pela fecundidade do reino e da consciência.

O aspecto feminino do homem, quando rejeitado, e reprimido acaba se tornando não diferenciado. No inconsciente ela ganha mais força e se volta contra a consciência unilateral, se tornando primitiva, vingativa e amarga. Assim o feminino interior, a anima, que representa o aspecto da vida, agora se volta contra a atitude consciente, como aspecto da morte.

Agora chegamos à segunda parte do filme. E nela temos os seguintes personagens: Stephan como rei, que se casou e teve uma filha, Aurora, as três fadas, o corvo Diavale, e claro, Malévola. Nessa segunda parte agora temos o oposto da primeira. Na primeira, havia um desequilíbrio onde o masculino predominava. Agora o feminino é mais forte. Temos mais figuras femininas representadas pelas fadas, Aurora e Malévola.

A psique sempre busca o equilíbrio compensatório. Mas esse equilíbrio só ocorre por meio da enantiodromia. Esse é um ciclo natural da psique, pois tudo deve se reverter em seu oposto para que haja aprendizado e flexibilidade. E agora vemos uma consciência na fase matriarcal, em compensação a fase anterior patriarcal. E nessa fase o feminino ferido e traído busca sua vingança, mais que isso busca seu lugar de direito.

Mas a atitude consciente coletiva, representada pelo rei Stephan, ainda rejeita esse feminino. Vemos isso em seu comportamento, pois além de ainda querer eliminar Malévola, ele envia sua filha amaldiçoada para longe aos cuidados das três fadas, negando assim sua função paterna de proteção e simplesmente ignora sua esposa que está à beira da morte. Um homem quando rejeita seu feminino é frequentemente tomado por ele. Se tornando mal-humorado, pois ao invés de ajudá-lo a administrar suas emoções a anima o carrega de afetos primitivos e indiferenciados.

Assim como Stephan, o homem se afunda cada vez mais em um humor altamente opressivo, rejeitando seus relacionamentos mais próximos e não tendo consideração por ninguém. Malévola, então, traída e amargurada não é mais uma fada. Ela se tornou uma bruxa. Ela agora é a encarnação da Mãe terrível.

A Mãe Terrível liga-se à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade. Nota-se que ela cria uma barreira de espinho ao redor do reino de Moors. E dessa forma, ninguém mais tem acesso ao inconsciente. E por isso a terra se torna estéril, sem vida. Nos contos de fada, a bruxa, representante da Mãe Terrível, sempre está acompanhada por um animal. Esse que representa o animus terrível dela sempre a ajuda. No caso do filme, ela é auxiliada por um corvo, que se transforma em homem, Diaval.

O corvo é associado à bruxaria, magia, azar, mau presságio, mas também fertilidade, esperança e sabedoria. Ele representa as asas que ela perdeu, sendo uma alusão clara a sua função de animus. Porém, o fato de se transformar ocasionalmente em homem, demonstra uma semente de evolução em Malévola. Seu animus não é totalmente primitivo e por vezes a esclarece e serve de consciência para ela.

Malévola, como Mãe Terrível, então se volta contra a criação do rei (sua filha). E nesse momento a Mãe Terrível exige um sacrifício para aplacar sua ira. Aqui vemos um tema mitológico recorrente: o do sacrifício de uma virgem. O tema do sacrifício, em termos psicológicos, significa que para se alcançar um avanço na consciência, e para uma mudança de atitude, a velha forma deve morrer. Ou seja, para se chegar a um equilíbrio entre masculino e feminino alguém deve ser sacrificado e submetido aos domínios da bruxa.

A princesa Aurora é então a vítima escolhida. A bruxa lhe lança uma maldição do sono da morte. Seu pai a envia para longe como forma de proteção e ela não sabe quem ela é e nem que está sob uma maldição. Ela passa a viver com as três fadas escondida, porém essas são inábeis em seu cuidado e proteção. Logo, devido a sua curiosidade, ela passa a viver em Moor com Malévola.

Como nos contos de fada, a princesa perdeu sua mãe representante da Mãe Boa e agora passa a conviver com a Mãe Terrível. O fato de ir para Moors, o mundo do inconsciente, faz uma alusão ao mito deInanna, que empreende uma descida ao mundo subterrâneo de sua irmã sombria Ereshkigal. E é nesse instante, que Malévola começa a encontrar a redenção, uma vez que ela passa a conhecer o amor verdadeiro na forma da maternidade.

Sua redenção não poderia vir pelo masculino, visto que este a traiu, mas por uma menina que a faz relembrar seu lado amoroso, que a faz recordar de um tempo em que era feliz. É pela compaixão de Aurora que ela volta a ter esperanças e a amar. E assim Malévola consegue resgatar suas asas, voltando a ter a sua função de psicopompo. O rei Stephan encontra o destino de todo aquele que se encontra engessado em uma atitude unilateral enrijecida, a morte. E a consciência coletiva encontrou seu equilíbrio entre os opostos com um quarteto que passa a representar a Alteridade e Totalidade: Aurora e o Príncipe e Malévola e Diaval.

Referências:

JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. Vozes. Petrópolis: 1986.

____ O eu e o inconsciente. 21 ed.Vozes. Petrópolis: 2008

NEUWMAN, E. A Grande Mãe.Cultrix. São Paulo: 2006.

VON FRANZ, M. L. Mitos de Criação. 2 ed.Paulus. São Paulo:2011.

____ A interpretação dos contos de fada. 5 ed.Paulus. São Paulo:2005.

____ A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed.Paulus. São Paulo:2002.

____ Animus e Anima nos contos de fada. Verus. Campinas: 2010.

 

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– mães equilibradas:

*Mente sã e corpo são.

*Sexualmente satisfeita.

*Emoções equilibradas.

*Colabora junto com seu parceiro.

*Parirão, amamentarão e criarão seus filhos de acordo com a natureza.

*São conscientes de que o novo neném não é uma víscera nem um órgão seu, que nasceram de uma necessidade do universo e vieram para conquistar novos caminhos, sendo um passo a mais para a evolução do ser humano.

*Não lhe irá incutir modelos fora de validade que pertecem ao passado.

*Lhe transmitirão os valores de seus antepassados.

*Se deixarão guiar pelo filho, para que ele indique o que necessita e não metas exigidas pela armadilha familiar que poderia invalidar ou desviá-lo de seu ser essencial.

*Nunca serem as possuídoras únicas do filho, o compartilhará com o pai e com o mundo.

*Não lhe dirão «olha por aqui»  e sim mostrarão o maior número de opções possíveis, lhe dando a oportunidade de escolher.

*Saberão adaptar-se as necessidades do bebê, o amamentando os meses necessários, sustentando-o com braços amorosos e o abraçando com doçura: essa experiência permite ao neném de peito sentir-se real, ser, e logo que dará a possibilidade de fazer e receber.

– mãe consciente:

1.-Parí um filho que não é meu. O entrego ao mundo.

2.-Esse filho não veio cumprir meu projeto, nem os projetos da minha árvore genealógica, e sim seus próprios projetos.

3.-Não o batizo com nenhum nome que já exista na árvore genealógica, nem com nomes que lhe imprimam um destino.

4.-O crío com afeto, sem deixar de ser eu mesma, sem adição ao sacrifício, e sim com responsabilidade e através da libertade.

5.-Lhe ofereço ferramentas que ajudem a construir o edifício de sua própria vida, mas aceito que escolha livremente as que julgue adequadas e rejeite as inadequadas para ele. Me dou conta que a melhor maneira de ensinar um filho não é com limites ou falta deles e sim com exemplo.

6.-Aceito que deixe de me chamar de “mamãe” quando ele decidir, para passar a me chamar por meu próprio nome, dessa forma corta os laços de dependência e a relação entre ambos se equilibra.

7.-Lhe permito e facilito que tenha um espaço privado e íntimo em casa que sinta como seu próprio território.

8.- A escolha de suas amizades, de sua carreira, de suas atividades em tempo livre, etc., o escuto,  dou minha opinião, mas não seleciono nada por ele, nem o proíbo nem obrigo.

9.- Deixo que meu filho cometa erros, que possa cair, que não seja perfeito. Comprendo que cada fracasso é uma mudança de caminho e com eles se cresce a cada dia; se o protejo além da conta, ele será como um bonzai, nunca será adulto.

10.-Jamais definirei a meu filho (“é tranquilo”, “é nervoso”, “é tímido”…), porque entendo que as crianças formam seus  auto-conceitos a partir do que seus pais dizem dele. Lhe transmito que dentro dele estão todas as possibilidades de ser, pode ser tudo em potencial.

Por Alejandro Jodorowsky, extraído de seu livro “Manual de Psicomagia”.ed. Siruela

Foto: Lime Fly Photography

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Estou lendo um livro chamado “Fadas no Divã”, que retrata a visão da psicanálise dos contos de fadas! Ao pesquisar sobre os autores (Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso), encontrei uma matéria da Superinteressante sobre o tema. Vale muito a pena a leitura para os “superinteressados” ou não!

Bjs

Fernanda

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A verdadeira moral da história

O segredo do sucesso dos contos de fadas é o seu poder de estimular nosso inconsciente. Entenda as entrelinhas psicológicas dos clássicos que mexem com crianças e adultos

POR TEXTO EMILIANO URBIM

Era uma vez uma aldeia onde os moradores passavam as noites contando e ouvindo histórias. As preferidas eram aquelas com enredos fabulosos, mas que despertavam sensações reais, confusas, secretas. Ao redor do fogo circulavam contos sobre bruxas e princesas, belas e feras, meninas e lobos, onde sobravam fome, medo, vingança e morte. E ao final, nem sempre feliz, alguém sempre pedia: “Conte outra vez”.

Em aldeias como essa, de histórias como essas, surgiram os contos de fadas (batizados por uma senhorinha francesa insensível ao fato de que a maioria nem fada têm). Os originais medievais eram destinados a ouvintes de todas as idades, mas, uma vez eleitos favoritos da infância burguesa, foram sendo sucessivamente amenizados até chegarem às atuais versões “censura livre”.

Essas narrativas são um patrimônio abstrato da humanidade, passado adiante via voz, livros, rádio, TV, internet – e, para quem está na faixa dos 30, vinis coloridos. “Isso é absolutamente surpreendente num mundo cada vez mais mutante”, afirma o casal Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso no livro Fadas no Divã, onde fazem uma análise psicológica das histórias infantis. “Como esses restos do passado vieram parar nas mãos da crianças de hoje?”, perguntam os psicanalistas.

Nos anos 70, o austríaco Bruno Bettelheim emplacou a tese de que os contos que sobreviveram são aqueles que mais mexem com o inconsciente de narradores e ouvintes. Uma seleção natural favoreceu as histórias que reverberam na mente, que trazem nas entrelinhas questões emocionais, sexuais, familiares, universais. “No conto de fadas, o paciente encontra soluções analisando as partes da história que dizem respeito a seus conflitos”, escreve em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Preservamos a história de Chapeuzinho não porque ela ensina a ter cuidado com estranhos, mas pelos sentimentos estranhos que ela provoca.

Nas próximas páginas, mostramos que a interpretação de clássicos como Branca de Neve, Patinho Feio e Cinderela pode ser reveladora, tanto para quem já perdeu o medo do lobo quanto para quem ainda espera pelo príncipe encantado.

Chapeuzinho Vermelho

Versão consagrada – A pedido da mãe, uma menina deve atravessar um matinho sinistro pra levar comida até a casa da vó doente. No caminho, Chapeuzinho é abordada por um lobo, que lhe indica um desvio longo enquanto pega um atalho até a casa da velhinha e a devora sem dó. Chegando lá, Chapeuzinho trava um diálogo recheado de duplos sentidos e também é comida. Eis que um caçador salva o dia, tirando avó e neta da barriga do lobo.

Outra história – Na versão compilada por Perrault em 1697, a menina e a velhinha morriam. Foram os Grimm, que, 160 anos depois, tiraram o caçador do chapéu. O final varia, mas mantém-se o sugestivo diálogo que começa com “pra que esses olhos tão grandes?” e termina com “pra te comer melhor!” Existe uma versão anterior à tradicional, que inclui canibalismo (a menina bebe o sangue e come a carne da avó), strip-tease e até sugestão de golden shower. Sim, o lobo pede que a menina urine sobre ele.

Interpretação – Uma questão recorrente é por que Chapeuzinho dá trela ao lobo? “Ela é uma criança com a ingenuidade de quem não sabe sobre o sexo. Ela pode não saber que jogo está sendo jogado, mas é inegável seu interesse em participar”, escrevem os autores de Fadas no Divã. Esse caminho interpretativo leva ao campo minado da sexualidade infantil. Segundo Freud, nossas primeiras experiências sexuais são encobertas por uma espécie de amnésia que vai até os 6 ou 8 anos. A história teria sobrevivido por usar símbolos que nos fazem pensar nessa questão. Ou seja: o conto não fala apenas sobre o perigo do desconhecido, mas sobre a perda da inocência.

Para maiores – No sexo, há adultos que agem como uma menina diante de um lobo. “Quando a vida lhes impõe um papel sexual, vão oferecer o que têm: sua ingenuidade. Ser uma assustada Chapeuzinho é até onde vai a sexualidade de quem não quer saber nada do assunto”, escreve o casal Corso.

Branca de Neve

Versão consagrada Sentenciada à morte por ser mais bela que a madrasta, Branca escapa e é acolhida por 7 anões. Mas a megera não sossega: disfarçada de bruxa, encontra a rival e lhe dá uma maçã envenenada. A jovem entra em coma, mas o beijo de um príncipe lhe devolve a vida. A madrasta é punida com a morte.

Outra história – Apenas no filme da Disney os anões ganharam personalidades distintas.

Interpretação – Em contos de fadas, madrasta é apenas um nome feio para mãe – neste caso, uma mãe que inveja a filha que vira mulher enquanto ela envelhece. Repare: o conflito só começa depois que o espelho informa que a madrasta não é mais a nº 1 do reino – a identidade feminina da adolescente Branca de Neve já está em construção. E a obra se completa com um leve toque de machismo: assim como a Bela Adormecida, ela só conquista o príncipe semimorta – ou seja, inerte, quietinha, comportada, como se espera de uma boa moça.

Para maiores – Todo namorado tem um pouco de “espelho, espelho meu”, constantemente requisitado a confirmar que, sim, a parceira é a mais linda e, não, não existe mais ninguém. E que ele a ama. Pra sempre. De verdade.

Patinho Feio

Versão consagrada – Banido do ninho por deficiência estética, o Patinho enfrenta doses variadas de rejeição administradas por humanos e animais. Ao final, entre iguais, descobre que não era um pato feio, mas um lindo cisne.

Outra história – Diferentemente da maioria dos contos de fadas, compilados do folclore europeu, este é uma criação do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875).

Interpretação – O mérito do conto é mexer com o senso de deslocamento comum a toda criança. Todo mundo, em algum momento, sente que está no lugar errado, seja a família, seja a escola, a turma, o mundo. Por outro lado, permite aos pais viver na ficção o pavor de ter o filho surrupiado.

Para maiores – Alguns carregam o “complexo de patinho feio” para além da infância, achando-se eternamente rejeitados e deslocados. Especula-se inclusive que Andersen tenha feito o conto refletindo seus problemas de auto-estima.

João e o Pé de Feijão

Versão consagrada – Em vez de vender uma vaca como sua mãe pediu, João topa com um açougueiro/engenheiro genético e troca a mimosa por feijões mágicos. Leva um esporro, mas as sementes crescem até o céu, onde João encontra um gigante, de quem rouba vários tesouros. Durante perseguição ao meliante, o grandão cai lá de cima e morre. João e a mãe vivem ricos e felizes para sempre.

Outra história – Na primeira versão (1807), João sobe aos céus para vingar o pai, um cavaleiro morto pelo gigante.

Interpretação – Cavaleiro, açougueiro, gigante: todos são faces do mesmo pai. A trajetória de João reflete o processo natural (mais para homens, menos para mulheres) de assimilar características e desejos da figura paterna na construção da própria personalidade – inclusive se distanciando um pouco da mãe.

Para maiores – Há caçulas que passam a vida tratando irmãos mais velhos como gigantes – para o bem e para o mal.

O Príncipe Sapo

Versão consagrada – Uma princesa mimada maltrata um sapo e é obrigada a dividir cama e mesa com o batráquio. Depois de um tempo, ela acaba caindo pelos encantos do bicho. E, assim que os dois se beijam, num passe de mágica, ele vira um príncipe.

Outra história A versão original não tem beijo: o sapo se transforma após ser jogado na parede.

Interpretação – Diferentemente de histórias que terminam no casamento, esta e A Bela e a Fera lidam com o complexo “depois”. O nojinho da princesa com o ser viscoso pode simbolizar o incômodo das crianças com o sexo, ou simplesmente com relacionamentos fora da família – ambos redimidos ao final do conto.

Para maiores – Essa princesa é da linhagem das “megeras domadas”, que esperneiam, mas ao fim se submetem ao papel passivo reservado a elas.

Cinderela

Versão consagrada – A madrasta e as meias-irmãs de Cinderela lhe delegam o trabalho doméstico, na esperança de que o batente a embarangue. Mas chega o baile real. Repaginada por fadas, Cinderela brilha e conquista o príncipe, que guarda da noite um sapatinho de cristal, abandonado pela bela enquanto fugia em desabalada corrida. O príncipe sai calçando todas em busca da dona do sapato, até dar com o pé de Cinderela e ambos viverem felizes para sempre.

Outra história – Há versões em que as irmãs invejosas são cegadas por aves amigas de Cinderela.

Interpretação – Na superfície temos a fantasia dos adolescentes de que a sua vida não pode ser a real: existe um destino melhor, que lhe pertence e que lhe foi roubado, simbolizado na história pelo príncipe. “Essa história permite uma empatia imediata de qualquer filho, já que cada um se sentirá demasiado injustiçado e exigido, assim como pouco amado. Acreditamos que daí provém seu sucesso”, escrevem Diana e Mário Corso. “Onde houver irmãos, haverá desigualdade de fato ou a suposição de que ela existe.” Como costuma acontecer, a figura materna é multifacetada: é a mãe bondosa que foi, a madrasta exigente e a fada que inspira sonhos. Quanto àquele sapatinho, sim, ele pode ser interpretado como um traço de fetichismo, uma dica precoce de que alguns elementos podem valer muito no jogo da sedução.

Para maiores – “A história de Cinderela é constantemente reciclada, em séries como Sex and the City e boa parte das comédias românticas”, diz Maria Tatar, folclorista da Universidade Harvard e autora de Contos de Fadas: Edição Comentada e Ilustrada. A personagem também une fantasias masculinas geralmente conflitantes: a princesa para casar e a serviçal para… bem, servir. “Cinderela persiste na fantasia feminina. Independentemente da mulher forte e capaz que ela se mostre no mundo, Cinderela será a que, na intimidade, se disponha a brincar de esconde-esconde”, afirmam os autores de Fadas no Divã.

Ilustra: First snow… Tatiana Doronin

http://super.abril.com.br/cultura/verdadeira-moral-historia-447924.shtml

- a visão do budismo sobre agressividade

Alguns dizem que a natureza básica do ser humano é agressiva, outros dizem que é gentil. Ambos têm certo grau de razão, mas entendo que a natureza básica do ser humano é gentil, porque todo mundo quer alegria, não sofrimento.

A IMPORTÂNCIA DO AMOR E DA TRANQÜILIDADE

Quando no ventre da mãe, antes de nascer, o estado tranqüilo da mãe é vital para a saúde da criança. Depois de algumas semanas de nascimento, o toque físico na criança é vital para o desenvolvimento adequado da mente.

Portanto, durante esse período — e aqui não se está falando de religião e fé — a gentileza e a bondade são vitais para a criança.

Depois, quando se trata de educar uma criança, aquelas que têm uma atmosfera gentil, de apoio, aprendem e se desenvolvem mais; as que não recebem afeto humano se desenvolvem menos. Isso mostra claramente a necessidade do amor, e de uma atmosfera afetiva.

A compaixão, o cuidado gentil, são qualidades predominantes em seres humanos. Também vemos seres humanos se expressando de modo violento, mas isso se deve ao mau uso da inteligência e ao desejo — que terminam por gerar estados mentais nada agradáveis. E esses não são aspectos mentais de nossa natureza básica.

Usualmente vemos no jornal, rádio, televisão atrocidades, atos negativos, e a partir disso concluímos que a natureza humana é negativa. E nos perguntamos por que essas coisas negativas se tornam usuais. Essa nossa reação mostra que atividades como a compaixão e o cuidado são naturais. Por isso os tomamos por habituais. O crime, o assassinato, as ações violentas são um pouco fora da natureza humana, e por isso são notícia. Na sociedade humana, as atividades de ajuda e compaixão são predominantes — e por o serem, não são notícia.

Se analisamos de perto as atividades humanas, veremos que a parte dominante das atividades humanas são as compassivas e generosas, não as agressivas. Nesta manhã vimos que a raiva e ódio são coisas que fazem mal a nossa saúde. O nosso corpo sente-se bem com emoções positivas, e sofre com as negativas.

COMO CHEGAR À NÃO VIOLÊNCIA

Para enfrentar a raiva, o ódio, o ciúme e as demais emoções negativas, temos que analisar o que são e de que forma agir em relação a eles. Hoje em dia é muito comum se falar sobre paz e não violência como uma coisa positiva. Mas qual é a linha que separa a violência da não violência? A verdadeira linha que as separa é a motivação e a resolução.

Para que se possa promover a não violência, temos que cultivar a compaixão, o senso de cuidado com os outros. Temos que controlar nossas emoções negativas. E se nós tentarmos suprimir essas emoções à força, não conseguiremos.

O controle está ligado a conhecer, analisar essas emoções e, com base nessa análise, escolher um caminho diferente. Se você tem o objetivo de ser uma pessoa com potencial de ajudar os outros, será necessário ter uma atitude perante um dos fatores que mais bloqueiam nossa ação positiva nesse sentido: a raiva e o ódio. Terá que ter uma atitude capaz de lidar com esses sentimentos. E o antídoto mais eficaz contra eles é a paciência.

OS MALEFÍCIOS DA RAIVA

Que benefício a raiva pode trazer? Às vezes pensamos que ela vem em nosso socorro: em uma situação trágica, a raiva parece nos dar mais coragem e energia. Sob essa perspectiva, seria algo que nos ajudaria a superar uma situação difícil.

Mas a energia que vem da raiva é cega, não tem nenhuma sabedoria, e traz o potencial de fazer com que você se auto-destrua. A raiva bloqueia nossa capacidade de discernimento, e cega nossa inteligência.

Por exemplo: às vezes perdemos a cabeça e dizemos palavras absurdas, depois nos sentimos envergonhados, temos vergonha do que dissemos, de nossas palavras impensadas. No momento em que a raiva tomou conta, perdemos a capacidade de pensar e de discernir.

A raiva também não faz bem a nossa saúde. Algumas vezes, quando queremos atingir um inimigo, deixamos a raiva nos guiar. Não é certo que conseguiremos atingir o inimigo, mas uma coisa é certa: prejudicaremos a nós mesmos.

Se temos um inimigo que resolve nos perturbar, quando reagimos estamos deixando que a situação continue a se desenvolver. E, mesmo depois que terminou, continuamos a sentir raiva — deixando que a situação nos perturbe mesmo depois de terminada. Se, no entanto, temos paciência, a situação irá acabar por si mesma.

A raiva causa dor de estômago, mal estar, em nós. E o inimigo pode até se regozijar com isso.

Temos que tomar atitudes de uma maneira pensada, sem perder a paz de espírito. Aqueles que tem alguma prática de compaixão e tolerância conseguem fazê-lo muito bem. Vários monges tibetanos que estiveram em prisões chinesas, alguns por muito tempo. Os que conseguiram atravessar essa situação de forma menos traumática foram os que mais cultivavam uma atitude compassiva.

Todos eles passaram por tortura física, mas os mais compassivos sofreram muito menos com a tortura. Um monge que ficou 18 anos em uma prisão, em uma ocasião em que conversávamos, me falava sobre a vida na prisão. Ele me disse que em algumas ocasiões esteve em grande perigo. E eu perguntei: “que tipo de perigo”? Ele me respondeu: “perigo de perder a compaixão pelos chineses”. Isso mostra o quanto a paciência e a tolerância são importantes. Elas não são fraquezas, e sim um sinal de fortaleza interior.

Se você pratica a compaixão, eventualmente você pode até desenvolver algum grau de gratidão pelo seu inimigo, porque só através da prática da tolerância e paciência se manifesta a compaixão.

E para praticar a paciência e a tolerância você tem que enfrentar situações difíceis. Como praticar tolerância diante de um Buda? Para aprender tolerância e paciência temos que exerce-las. Portanto, o inimigo é o seu mestre, e o ajuda a desenvolver essas qualidades.

Algumas vezes temos a noção de que a prática da paciência e tolerância significa nos curvarmos diante dos outros, mas não é isso. Estou falando de não deixarmos a raiva nos dominar, não de submissão.

COMO LIDAR COM A RAIVA

Como lidar com a raiva? Há diferentes tipos e níveis de raiva. Algumas são mais razoáveis, como a raiva motivada pela compaixão — ela pode nos levar a ficar irados com uma pessoa, e há razão para isso. Há no entanto outros tipos de raiva que não têm uma base na realidade. Surgem na mente como uma projeção de um estado mental negativo.

Há também diferentes graus de intensidade. Algumas raivas são mais intensas, outras menos. Dependendo do grau e do tipo, se adotam medidas diferentes.

Quando a raiva é mais branda, ao percebermos que está para vir, devemos lembrar o caráter perturbador dela, e então seremos capazes de controlá-la. No caso de uma raiva muito violenta, é muito difícil pensar em medidas preventivas como no caso de uma raiva mais branda. Então o melhor é neutraliza-la pensando em outros assuntos, para ao menos não deixa-la tomar conta. E, à medida que nos tornamos mais habilidosos, podemos adotar diferentes tipos de contra-ação.

Um outro tipo de prática é destinado à raiva que nos é causada por desastres naturais, tragédias. Então temos que olhar o problema de diferentes ângulos.

No meu caso, em que perdi meu país, vejo que isso trouxe uma oportunidade de encontrar muita gente e repartir experiências. Qualquer evento tem dois aspectos. Algo que parece muito ruim quando se está com raiva, pode ter aspectos benéficos.

Outro método é tentar olhar os eventos à distância. Vistos dessa nova perspectiva, os problemas ficam menores. Se olhamos muito de perto, parecem incontroláveis. Devo pensar “esse não é somente o meu caso, mas há muitos outros”. Isso coloca as coisas em perspectiva.

Quando se tenta perceber as coisas de uma perspectiva mais ampla, se vê de forma diferente. Então, se abre um novo espaço para um novo sentimento, uma nova atitude. Isso revela a importância do estado mental.

Para se desenvolver a compaixão inamovível e sem preconceitos, é fundamental ter uma atitude correta frente aos inimigos. Assim, os budistas adotam a seguinte estratégia para desenvolver a compaixão sem preconceitos: Recuam.

Recue você também. Recue da proximidade dos sentimentos, da proximidade dos amigos e da distância dos inimigos. Adote a equanimidade. O apego aos amigos e o desagrado dos inimigos são um entrave.

Quando se olha com equanimidade, vemos que todos os seres querem a felicidade, querem se livrar do sofrimento. E quando percebemos isso, podemos chegar à compaixão.

Entrevista com Dalai Lama
Ilustração: Ahmad Mir