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psicologia

Por Hellen Reis Mourão

Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada.

Podemos dividir o filme Malévola em duas partes. Na primeira o filme nos apresenta dois reinos distintos e em guerra: o reino de Moors, onde vivem criaturas míticas, incluindo a fada Malévola, e o reino dos humanos. Essa divisão representa uma clara divisão entre o inconsciente, onde habitam os arquétipos e a consciência, no reino dos humanos.

Na primeira parte do filme temos as seguintes figuras, o rei velho, Malévola e Stefan, o jovem pelo qual a protagonista se apaixona.

O rei ambicioso que está para morrer precisa escolher um sucessor digno para o trono. Nota-se que no reino dos humanos não há uma figura feminina expressiva. Não vemos rainha e o rei apenas cita a sua filha. Isto demonstra que a atitude da consciência encontra-se extremamente unilateral, desequilibrada.

O rei simbolicamente incorpora o princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico de toda a nação. O rei pode ser considerado um símbolo do Self manifestado na consciência coletiva. E esse símbolo, conforme Von Franz (2005) tem necessidadede renovação constante, de compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o perigo de se tornar uma fórmula morta — um sistema e uma doutrina esvaziados de seu significado e tornar-se uma fórmula puramente exterior.

A atitude unilateral, então, desse reino é a ênfase no Logos. Não há feminino, não há Eros, não há relacionamento com o irracional. E onde falta o amor o poder se instala, por isso, deve-se escolher um novo rei para a renovação.

Entre os pretendentes ao trono está Stephan, que foi o amor de Malévola na infância. A ele, a fada entregou seu coração. Entretanto, Stephan a trai. Movido pelo poder e ambição, ele corta suas asas e as entrega ao rei. Garantindo então seu lugar como novo regente. E assim, o elemento feminino ainda não pode ser resgatado, a atitude unilateral permanece.

Essa atitude é comum em muitos homens, que movidos pelo medo de seu inconsciente, “cortam as asas” de sua mulher. Cortando sua independência, seu progresso profissional e até suas amizades. Eles se apresentam de forma amorosa, prometendo amor verdadeiro, mas visam o poder sobre elas.

Dessa forma, assim como Stephan, eles traem sua anima, traem sua própria alma. Malévola que era a protetora de Moor pode ser considerada a protetora do reino do inconsciente. Uma representação da anima.

Conforme Carl Jung, a anima é responsável por fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente do homem. Ela é o guia dele, seu psicopompo. É uma figura arquetípica que contém todas as experiências do homem com a mulher através de toda a história da humanidade, e por meio dela o homem pode compreender e a natureza da mulher.

Malévola transitava entre os dois mundos e executava esse papel. O fato de possuir asas é uma clara alusão ao deus grego Hermes, com suas sandálias aladas. Hermes era o deus mensageiro dos gregos. O único que podia transitar entre todos os mundos. Uma imagem arquetípica dopsicopompo.

Então, quando Stephan corta suas asas, ela perde essa função de guia e ponte e fica renegada ao inconsciente. Outro símbolo digno de nota são seus chifres. O chifre representa virilidade, força, poder e fertilidade. Ou seja, ela é a responsável pela fecundidade do reino e da consciência.

O aspecto feminino do homem, quando rejeitado, e reprimido acaba se tornando não diferenciado. No inconsciente ela ganha mais força e se volta contra a consciência unilateral, se tornando primitiva, vingativa e amarga. Assim o feminino interior, a anima, que representa o aspecto da vida, agora se volta contra a atitude consciente, como aspecto da morte.

Agora chegamos à segunda parte do filme. E nela temos os seguintes personagens: Stephan como rei, que se casou e teve uma filha, Aurora, as três fadas, o corvo Diavale, e claro, Malévola. Nessa segunda parte agora temos o oposto da primeira. Na primeira, havia um desequilíbrio onde o masculino predominava. Agora o feminino é mais forte. Temos mais figuras femininas representadas pelas fadas, Aurora e Malévola.

A psique sempre busca o equilíbrio compensatório. Mas esse equilíbrio só ocorre por meio da enantiodromia. Esse é um ciclo natural da psique, pois tudo deve se reverter em seu oposto para que haja aprendizado e flexibilidade. E agora vemos uma consciência na fase matriarcal, em compensação a fase anterior patriarcal. E nessa fase o feminino ferido e traído busca sua vingança, mais que isso busca seu lugar de direito.

Mas a atitude consciente coletiva, representada pelo rei Stephan, ainda rejeita esse feminino. Vemos isso em seu comportamento, pois além de ainda querer eliminar Malévola, ele envia sua filha amaldiçoada para longe aos cuidados das três fadas, negando assim sua função paterna de proteção e simplesmente ignora sua esposa que está à beira da morte. Um homem quando rejeita seu feminino é frequentemente tomado por ele. Se tornando mal-humorado, pois ao invés de ajudá-lo a administrar suas emoções a anima o carrega de afetos primitivos e indiferenciados.

Assim como Stephan, o homem se afunda cada vez mais em um humor altamente opressivo, rejeitando seus relacionamentos mais próximos e não tendo consideração por ninguém. Malévola, então, traída e amargurada não é mais uma fada. Ela se tornou uma bruxa. Ela agora é a encarnação da Mãe terrível.

A Mãe Terrível liga-se à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade. Nota-se que ela cria uma barreira de espinho ao redor do reino de Moors. E dessa forma, ninguém mais tem acesso ao inconsciente. E por isso a terra se torna estéril, sem vida. Nos contos de fada, a bruxa, representante da Mãe Terrível, sempre está acompanhada por um animal. Esse que representa o animus terrível dela sempre a ajuda. No caso do filme, ela é auxiliada por um corvo, que se transforma em homem, Diaval.

O corvo é associado à bruxaria, magia, azar, mau presságio, mas também fertilidade, esperança e sabedoria. Ele representa as asas que ela perdeu, sendo uma alusão clara a sua função de animus. Porém, o fato de se transformar ocasionalmente em homem, demonstra uma semente de evolução em Malévola. Seu animus não é totalmente primitivo e por vezes a esclarece e serve de consciência para ela.

Malévola, como Mãe Terrível, então se volta contra a criação do rei (sua filha). E nesse momento a Mãe Terrível exige um sacrifício para aplacar sua ira. Aqui vemos um tema mitológico recorrente: o do sacrifício de uma virgem. O tema do sacrifício, em termos psicológicos, significa que para se alcançar um avanço na consciência, e para uma mudança de atitude, a velha forma deve morrer. Ou seja, para se chegar a um equilíbrio entre masculino e feminino alguém deve ser sacrificado e submetido aos domínios da bruxa.

A princesa Aurora é então a vítima escolhida. A bruxa lhe lança uma maldição do sono da morte. Seu pai a envia para longe como forma de proteção e ela não sabe quem ela é e nem que está sob uma maldição. Ela passa a viver com as três fadas escondida, porém essas são inábeis em seu cuidado e proteção. Logo, devido a sua curiosidade, ela passa a viver em Moor com Malévola.

Como nos contos de fada, a princesa perdeu sua mãe representante da Mãe Boa e agora passa a conviver com a Mãe Terrível. O fato de ir para Moors, o mundo do inconsciente, faz uma alusão ao mito deInanna, que empreende uma descida ao mundo subterrâneo de sua irmã sombria Ereshkigal. E é nesse instante, que Malévola começa a encontrar a redenção, uma vez que ela passa a conhecer o amor verdadeiro na forma da maternidade.

Sua redenção não poderia vir pelo masculino, visto que este a traiu, mas por uma menina que a faz relembrar seu lado amoroso, que a faz recordar de um tempo em que era feliz. É pela compaixão de Aurora que ela volta a ter esperanças e a amar. E assim Malévola consegue resgatar suas asas, voltando a ter a sua função de psicopompo. O rei Stephan encontra o destino de todo aquele que se encontra engessado em uma atitude unilateral enrijecida, a morte. E a consciência coletiva encontrou seu equilíbrio entre os opostos com um quarteto que passa a representar a Alteridade e Totalidade: Aurora e o Príncipe e Malévola e Diaval.

Referências:

JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. Vozes. Petrópolis: 1986.

____ O eu e o inconsciente. 21 ed.Vozes. Petrópolis: 2008

NEUWMAN, E. A Grande Mãe.Cultrix. São Paulo: 2006.

VON FRANZ, M. L. Mitos de Criação. 2 ed.Paulus. São Paulo:2011.

____ A interpretação dos contos de fada. 5 ed.Paulus. São Paulo:2005.

____ A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed.Paulus. São Paulo:2002.

____ Animus e Anima nos contos de fada. Verus. Campinas: 2010.

 

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– mães equilibradas:

*Mente sã e corpo são.

*Sexualmente satisfeita.

*Emoções equilibradas.

*Colabora junto com seu parceiro.

*Parirão, amamentarão e criarão seus filhos de acordo com a natureza.

*São conscientes de que o novo neném não é uma víscera nem um órgão seu, que nasceram de uma necessidade do universo e vieram para conquistar novos caminhos, sendo um passo a mais para a evolução do ser humano.

*Não lhe irá incutir modelos fora de validade que pertecem ao passado.

*Lhe transmitirão os valores de seus antepassados.

*Se deixarão guiar pelo filho, para que ele indique o que necessita e não metas exigidas pela armadilha familiar que poderia invalidar ou desviá-lo de seu ser essencial.

*Nunca serem as possuídoras únicas do filho, o compartilhará com o pai e com o mundo.

*Não lhe dirão «olha por aqui»  e sim mostrarão o maior número de opções possíveis, lhe dando a oportunidade de escolher.

*Saberão adaptar-se as necessidades do bebê, o amamentando os meses necessários, sustentando-o com braços amorosos e o abraçando com doçura: essa experiência permite ao neném de peito sentir-se real, ser, e logo que dará a possibilidade de fazer e receber.

– mãe consciente:

1.-Parí um filho que não é meu. O entrego ao mundo.

2.-Esse filho não veio cumprir meu projeto, nem os projetos da minha árvore genealógica, e sim seus próprios projetos.

3.-Não o batizo com nenhum nome que já exista na árvore genealógica, nem com nomes que lhe imprimam um destino.

4.-O crío com afeto, sem deixar de ser eu mesma, sem adição ao sacrifício, e sim com responsabilidade e através da libertade.

5.-Lhe ofereço ferramentas que ajudem a construir o edifício de sua própria vida, mas aceito que escolha livremente as que julgue adequadas e rejeite as inadequadas para ele. Me dou conta que a melhor maneira de ensinar um filho não é com limites ou falta deles e sim com exemplo.

6.-Aceito que deixe de me chamar de “mamãe” quando ele decidir, para passar a me chamar por meu próprio nome, dessa forma corta os laços de dependência e a relação entre ambos se equilibra.

7.-Lhe permito e facilito que tenha um espaço privado e íntimo em casa que sinta como seu próprio território.

8.- A escolha de suas amizades, de sua carreira, de suas atividades em tempo livre, etc., o escuto,  dou minha opinião, mas não seleciono nada por ele, nem o proíbo nem obrigo.

9.- Deixo que meu filho cometa erros, que possa cair, que não seja perfeito. Comprendo que cada fracasso é uma mudança de caminho e com eles se cresce a cada dia; se o protejo além da conta, ele será como um bonzai, nunca será adulto.

10.-Jamais definirei a meu filho (“é tranquilo”, “é nervoso”, “é tímido”…), porque entendo que as crianças formam seus  auto-conceitos a partir do que seus pais dizem dele. Lhe transmito que dentro dele estão todas as possibilidades de ser, pode ser tudo em potencial.

Por Alejandro Jodorowsky, extraído de seu livro “Manual de Psicomagia”.ed. Siruela

Foto: Lime Fly Photography

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Ter um dia de fúria é normal – e a culpa é do seu lado mais primitivo, que pode transformar uma pequena faísca em uma enorme explosão

por Melissa Becker
“É uma escalada muito rápida. A gente acaba não se reconhecendo, e, quando percebe, o resultado: dois murros na cara”, diz. Fonseca, que não costuma se envolver em brigas, reconhece que antes do episódio já não estava em um dia muito bom, perto de seu limite – do contrário, teria tido sangue-frio para deixar o esquentadinho de lado após os primeiros palavrões. Provavelmente, cruzou com outro sujeito que também estava prestes a explodir.A ira parece irracional – e, de certo modo, é mesmo. No cotidiano, surge quando nossos objetivos são bloqueados ou testemunhamos uma injustiça, diz o psicólogo social Simon Laham, autor de The Science of Sin: The Psychology of the Seven Deadlies – And Why They Are So Good for You (A Ciência do Pecado: A Psicologia dos Sete Pecados Capitais – e Por Que Eles São Tão Bons para Você, sem edição em português). Quanto mais queremos algo, mais raivosos ficamos se impedidos. São as amídalas entrando em ação. Os sentimentos raivosos nascem nessas estruturas que se localizam em uma primitiva parte do cérebro (veja página 22). Suas respostas a uma ameaça são reguladas pelo córtex, no lobo frontal, região de funções mais complexas. É ele quem escolhe se vamos argumentar, xingar ou bater – capacidade que nos diferencia dos animais, incapazes de ponderar. “Nossas áreas cerebrais ativadas são as mesmas de um urso, mas temos maior quantidade de córtex e, por isso, somos mais capazes de modular a raiva”, explica o neurocientista e professor John Fontenele Araujo, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ritmicidade, Sono, Memória e Emoção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Para garantir a preservação da espécie, a raiva funciona como um mecanismo de auto-defesa que o cérebro dispara ao detectar o que acredita ser um perigo. A agressão é uma das formas de expressar ira, mas não um sinônimo. “Na maioria das vezes, a raiva não leva à violência, e é melhor que seja evitada. Mas, se você parecer ameaçador, seu oponente vai recuar”, diz Michael Ewbank, pesquisador das bases neurais das emoções no Medical Research Council Cognition and Brain Sciences Unit, em Cambridge, na Inglaterra.

O historiador Thomas Dixon, diretor do Centro para a História das Emoções em Queen Mary, na Universidade de Londres, lembra que a ira, mal direcionada e expressa de forma violenta, sempre foi considerada pecaminosa. A raiva moderna toma novas formas, como no trânsito e até no ar – air rage é o termo em inglês para o comportamento violento de passageiros ou da tripulação em um avião, geralmente durante um voo. Fora aquela que surge da frustração e da impotência em frente à impressora que não funciona, à internet que cai, à falta de sinal no celular…

Descontrole total

Se você for do tipo pavio curto, a razão pode estar no cérebro – e na genética. A forma que os genes influenciam a raiva ainda não foi totalmente desvendada, mas a neurocientista Molly Crockett, da Universidade de Zurique, na Suíça, afirma que existem evidências de que variações em um gene (MAOA) influenciem no circuito cerebral da raiva e de seu controle.

São também os genes que desempenham papel importante nos níveis de certos neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina – ambos envolvidos na agressividade. A serotonina pode influenciar naquela conversinha entre as amídalas e o córtex pré-frontal que controlaria a raiva, diz a cientista.

Por isso, ficamos irritados quando estamos com fome ou cansados – nessas situações, ocorre uma flutuação dos níveis de serotonina. Em um estudo da Universidade de Cambridge em que a pesquisadora tomou parte, descobriu-se que quem tem uma tendência natural a se comportar agressivamente tem a comunicação ainda mais fraca entre as duas partes do cérebro após a redução do neurotransmissor – ou seja, fica mais difícil para o córtex segurar a raiva primitiva gerada pelas amídalas. Essa comunicação deficiente faz com que, em vez de respirar, ponderar e contar até 10, o sujeito se deixe dominar pela fúria (veja página 22).

Acha que a briga entre aqueles dois marmanjos começou por ter “muita testosterona junta”? Partes do cérebro envolvidas na raiva são realmente sensíveis a hormônios como esse, e, em geral, homens têm níveis mais elevados de testosterona do que mulheres, principalmente na fase reprodutiva. No entanto, John Medina, autor do livro The Genetic Inferno – Inside the Seven Deadly Sins (O Inferno Genético – Por Dentro dos Sete Pecados Capitais, sem edição em português), afirma que a testosterona pode ser capaz de agravar uma tendência agressiva já em andamento, mas não é a origem de um comportamento agressivo.

Cérebros e corpos femininos e masculinos respondem basicamente da mesma maneira quando as amídalas decidem virar a chave para o modo raiva. Homens tendem a ter atitudes mais violentas do que mulheres, mas circunstâncias diferentes podem levar a diferentes tipos de agressão, afirma o pesquisador Michael Ewbank. Elas têm o equilíbrio mental desafiado todo mês pela tensão pré-menstrual (TPM). De novo, a serotonina tem seu papel. “Fatores hormonais provocam alteração da concentração da serotonina e, por isso, o humor passa a variar de acordo com essa oscilação. Quando o estrogênio está alto, o neurotransmissor permanece mais tempo no organismo. Quando a progesterona está alta, ela destrói a serotonina mais rapidamente, e a sua falta causa os sintomas da TPM – e a fúria feminina que parece vir de lugar nenhum.

Em geral, crianças e adolescentes perdem o controle mais facilmente porque o lobo frontal – responsável pela tomada de decisão de atacar ou recuar – não está completamente desenvolvido até o fim da adolescência, lembra Ewbank. Conforme ficamos mais maduros, a possibilidade de termos ataques de cólera diminui consideravelmente. Ainda bem.
Loucura temporária

Todo mundo pode ter um dia de fúria – como o do personagem William Foster, de Michael Douglas, no filme homônimo -, com uma série de condições que levariam a esse comportamento. “É como se o córtex tivesse ido à falência, ficado incapaz nesse momento”, diz o neurocientista John Araujo. No século 18, a ira era vista como loucura temporária, afirma o historiador Thomas Dixon. Hoje, como algo que precisa ser tratado e gerenciado. No entanto, ela não é uma doença, mas uma emoção. Suas variações, sim, podem ser perigosas”, afirma o psicólogo forense Jason Jones, do Centro de Terapia Racional-Emotiva Comportamental da Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

Por anos, especialistas acreditaram que extravasar era o melhor remédio. Hoje, defende-se que essa catarse não funciona. A irritação de Caue Fonseca, lá do começo da reportagem, só lhe rendeu dois olhos roxos, que, a propósito, ficaram impunes: o agressor fez compras tranquilamente no supermercado e, quando a Polícia Militar chegou ao local, ele já estava longe. Jeffrey M. Lohr, do Departamento de Psicologia da Universidade do Arkansas (EUA) e autor de estudos sobre a raiva, afirma: “Expressar raiva provoca mais raiva, em vez de reduzi-la. O melhor é aprender como ser assertivo ou como regular suas emoções para diminuir a fúria”. Ou, como diz o clássico ditado inglês, Keep calm and carry on.
Demônio – Satanás

O hit de verões passados não deixa dúvida: na casa do Senhor não existe Satanás – e, naturalmente, não há ódio, vingança, violência, crueldade e irracionalidade. Satanás, o ilustre demônio que representa o pecado da raiva, aproveita a fagulha de ira para transformá-la numa explosão de fúria – não é à toa que o inferno está em chamas. E aí já viu: o descontrole aparece rapidamente e o pecador quebra tudo, de objetos a narizes.

Uma violenta emoção?

A palavra raiva não consta no Código Penal Brasileiro nem como atenuante, nem como agravante de pena, segundo o advogado criminalista Sergei Cobra Arbex. No entanto, a legislação considera uma “violenta emoção” atenuante de pena, se o crime é cometido após uma injustiça provocada pela vítima – mas não há um consenso. A raiva doentia pode fazer com que uma pessoa, se considerada incapaz por meio de laudo, responda por uma ação penal, mas fique isenta de pena.

Pesquisadores do King¿s College da Universidade de Londres investigaram, por meio de ressonância magnética, o cérebro de psicopatas condenados a crimes como assassinato, estupros seguidos de estrangulamento e cárcere privado. Eles encontraram uma redução significativa na conexão entre as amídalas (sim, aquelas onde a raiva nasce) e o córtex orbitofrontal, a região das tomadas de decisão. O grau de anormalidade estava relacionado ao grau da doença. Para os cientistas, essas diferenças possibilitam uma explicação biológica para a psicopatia.
Um dia de fúria
O ataque de raiva costuma durar não mais de 15 minutos. Mas muitas coisas acontecem no cérebro e no corpo

Narinas
Elas se abrem – o que permite maior entrada de oxigênio, que servirá de “combustível” para órgãos e músculos, caso precisemos lutar.

Sobrancelhas
A testa se franze e os olhos ficam menores – o que faz a fronte parecer maior e protege a visão, se partirmos para a briga. Em momentos de raiva intensa, alguns descrevem perda da visão periférica.

Mandíbula
A região fica cerrada, indicando grandes níveis de testosterona, o que serviria para diferenciar o rosto masculino do feminino ou infantil.

Dentes
Ficam à mostra – pela mesma razão dos macacos: mostrar ao inimigo que somos capazes de morder.

No cérebro
Hipotálamo Responsável pelas respostas fisiológicas: coração disparado, suor, rosto vermelho. O sangue vai mais para as mãos do que para as pernas – nos preparando para lutar, e não para correr.

Amídalas
Avaliam a reação de acordo com o que foi visto ou ouvido e decidem se você vai ficar com medo ou com raiva.

Córtex pré-frontal
Corrige possíveis erros e determina nossa reação. As respostas mais primitivas (socos, gritos) são as primeiras da lista. As mais complexas, influenciadas por questões morais, são as últimas.

Esquentadinho ou em chamas?
A ira é um pecado de diferentes graduações. Veja até que ponto pode chegar a fúria – e quando ela vira um problema

LABAREDAS DESCONTROLADAS
O grau máximo vem com desejo de destruição, e o ponto extremo seria matar alguém como expressão do ódio.

FOGO ALTO
O irado pode não agredir alguém, mas quebra o que estiver ao redor.

ALERTA VERMELHO
A raiva passa a ser excessiva quando episódios ocorrem repetitivamente, como se irritar com várias pessoas diferentes ao longo do dia.

FOGO MÉDIO
Neste estágio, a raiva não leva a piores consequências, mas uma forma negativa é a que motiva o bullying e o preconceito.

FOGO BRANDO
A irritação seria um “primeiro grau” da raiva, aquela que surge quando, em uma conversa, você defende com maior ênfase seu ponto de vista.

PODE SER SAUDÁVEL?
A raiva saudável é aquela que nos torna capazes de protestar e nos autoafirmar – sem ela, seríamos ou muito submissos ou muito explosivos.

 

Manada de raivosos
De zebras a valentões, a fúria coletiva causadora de bullyings virtuais a linchamentos vem da segurança de estar em grupo

O motorista de ônibus Edmilson dos Reis Alves passou mal enquanto dirigia. Perdeu o controle do veículo e bateu em carros e motos. Mas não foi um mal súbito que o matou. Ele morreu ao ser espancado por cerca de 20 pessoas na noite de 27 de novembro do ano passado, na zona leste de São Paulo. Até um extintor de incêndio foi usado na agressão. Esse tipo de fúria coletiva, que leva a linchamentos e confrontos, é um comportamento de causas múltiplas e ainda não totalmente compreendido pela ciência, afirma o professor John Araujo. Mas o especialista indica dois aspectos em especial.

Quando em um grupo ou em uma multidão, ficamos mais valentões, nos percebendo mais seguros para sermos mais agressivos – mesmo na natureza é assim: uma zebra não enfrenta um leão, mas um monte de zebras encararia a fera. A segunda causa envolve o comportamento de imitação: “Quando um indivíduo faz alguma coisa e outros repetem, a tendência é imitar. Você está junto a um grupo, e alguns começam a jogar pedras em um imóvel. Quando menos espera, também poderá estar repetindo o mesmo comportamento”, afirma.

Raiva da polícia foi considerada um dos combustíveis dos distúrbios ocorridos na Inglaterra, em agosto de 2011, por um estudo do jornal britânico The Guardian e da London School of Economics, publicado em dezembro. Os dois principais motivos citados pelos entrevistados que participaram do quebra-quebra pelo país como um dos fatores relevantes que motivaram confrontos e saques foram a força policial (85%) e a pobreza (86%). Os participantes alegaram ser tratados de forma diferente e injusta por policiais na hora de serem submetidos a revistas, por exemplo, e, ao tomar parte da confusão, se sentiram em um distúrbio antipolícia. O psicólogo forense Jason Jones, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, diz que o comportamento nessa onda de violência pode ter sido uma influência de poucas pessoas realmente iradas, que, em um comportamento típico de manada, levaram um grupo maior a apoiá-las. “Quando sentimos raiva em relação a algum acontecimento ou a um grupo, em vez de uma pessoa especificamente, notamos algo que tenha transgredido nosso objetivo, e nos convencemos de que essas condições, ou a vida, ou o mundo, não devem mais ser assim e não podemos mais aguentar isso”, diz. Assim acontecem as explosões coletivas em relação a um ente.

O efeito manada também se dissemina na internet. As pessoas tendem a se manifestar e a modular sua opinião de acordo com o grupo que as rodeia. “Mas sempre com uma tendência de maior agressividade e pontuação, o que não fariam no offline”, afirma Raquel Recuero, professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), que pesquisa redes sociais e comunidades virtuais. Ao mesmo tempo, tendemos a ser menos cuidadosos na rede. Normas de conduta que envolvem a conversação e a imagem de quem interage ficam relegadas a um segundo plano na rede, no qual as pessoas dizem coisas que jamais ousariam em uma situação offline. “Parte disso porque você não vê o efeito de suas palavras no outro. Além disso, há a sensação de anonimato”, diz Raquel. Por trás da tela, ficamos poderosos – sozinhos e apoiados por uma multidão, também anônima. Um prato cheio para a raiva.

 

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Estou lendo um livro chamado “Fadas no Divã”, que retrata a visão da psicanálise dos contos de fadas! Ao pesquisar sobre os autores (Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso), encontrei uma matéria da Superinteressante sobre o tema. Vale muito a pena a leitura para os “superinteressados” ou não!

Bjs

Fernanda

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A verdadeira moral da história

O segredo do sucesso dos contos de fadas é o seu poder de estimular nosso inconsciente. Entenda as entrelinhas psicológicas dos clássicos que mexem com crianças e adultos

POR TEXTO EMILIANO URBIM

Era uma vez uma aldeia onde os moradores passavam as noites contando e ouvindo histórias. As preferidas eram aquelas com enredos fabulosos, mas que despertavam sensações reais, confusas, secretas. Ao redor do fogo circulavam contos sobre bruxas e princesas, belas e feras, meninas e lobos, onde sobravam fome, medo, vingança e morte. E ao final, nem sempre feliz, alguém sempre pedia: “Conte outra vez”.

Em aldeias como essa, de histórias como essas, surgiram os contos de fadas (batizados por uma senhorinha francesa insensível ao fato de que a maioria nem fada têm). Os originais medievais eram destinados a ouvintes de todas as idades, mas, uma vez eleitos favoritos da infância burguesa, foram sendo sucessivamente amenizados até chegarem às atuais versões “censura livre”.

Essas narrativas são um patrimônio abstrato da humanidade, passado adiante via voz, livros, rádio, TV, internet – e, para quem está na faixa dos 30, vinis coloridos. “Isso é absolutamente surpreendente num mundo cada vez mais mutante”, afirma o casal Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso no livro Fadas no Divã, onde fazem uma análise psicológica das histórias infantis. “Como esses restos do passado vieram parar nas mãos da crianças de hoje?”, perguntam os psicanalistas.

Nos anos 70, o austríaco Bruno Bettelheim emplacou a tese de que os contos que sobreviveram são aqueles que mais mexem com o inconsciente de narradores e ouvintes. Uma seleção natural favoreceu as histórias que reverberam na mente, que trazem nas entrelinhas questões emocionais, sexuais, familiares, universais. “No conto de fadas, o paciente encontra soluções analisando as partes da história que dizem respeito a seus conflitos”, escreve em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Preservamos a história de Chapeuzinho não porque ela ensina a ter cuidado com estranhos, mas pelos sentimentos estranhos que ela provoca.

Nas próximas páginas, mostramos que a interpretação de clássicos como Branca de Neve, Patinho Feio e Cinderela pode ser reveladora, tanto para quem já perdeu o medo do lobo quanto para quem ainda espera pelo príncipe encantado.

Chapeuzinho Vermelho

Versão consagrada – A pedido da mãe, uma menina deve atravessar um matinho sinistro pra levar comida até a casa da vó doente. No caminho, Chapeuzinho é abordada por um lobo, que lhe indica um desvio longo enquanto pega um atalho até a casa da velhinha e a devora sem dó. Chegando lá, Chapeuzinho trava um diálogo recheado de duplos sentidos e também é comida. Eis que um caçador salva o dia, tirando avó e neta da barriga do lobo.

Outra história – Na versão compilada por Perrault em 1697, a menina e a velhinha morriam. Foram os Grimm, que, 160 anos depois, tiraram o caçador do chapéu. O final varia, mas mantém-se o sugestivo diálogo que começa com “pra que esses olhos tão grandes?” e termina com “pra te comer melhor!” Existe uma versão anterior à tradicional, que inclui canibalismo (a menina bebe o sangue e come a carne da avó), strip-tease e até sugestão de golden shower. Sim, o lobo pede que a menina urine sobre ele.

Interpretação – Uma questão recorrente é por que Chapeuzinho dá trela ao lobo? “Ela é uma criança com a ingenuidade de quem não sabe sobre o sexo. Ela pode não saber que jogo está sendo jogado, mas é inegável seu interesse em participar”, escrevem os autores de Fadas no Divã. Esse caminho interpretativo leva ao campo minado da sexualidade infantil. Segundo Freud, nossas primeiras experiências sexuais são encobertas por uma espécie de amnésia que vai até os 6 ou 8 anos. A história teria sobrevivido por usar símbolos que nos fazem pensar nessa questão. Ou seja: o conto não fala apenas sobre o perigo do desconhecido, mas sobre a perda da inocência.

Para maiores – No sexo, há adultos que agem como uma menina diante de um lobo. “Quando a vida lhes impõe um papel sexual, vão oferecer o que têm: sua ingenuidade. Ser uma assustada Chapeuzinho é até onde vai a sexualidade de quem não quer saber nada do assunto”, escreve o casal Corso.

Branca de Neve

Versão consagrada Sentenciada à morte por ser mais bela que a madrasta, Branca escapa e é acolhida por 7 anões. Mas a megera não sossega: disfarçada de bruxa, encontra a rival e lhe dá uma maçã envenenada. A jovem entra em coma, mas o beijo de um príncipe lhe devolve a vida. A madrasta é punida com a morte.

Outra história – Apenas no filme da Disney os anões ganharam personalidades distintas.

Interpretação – Em contos de fadas, madrasta é apenas um nome feio para mãe – neste caso, uma mãe que inveja a filha que vira mulher enquanto ela envelhece. Repare: o conflito só começa depois que o espelho informa que a madrasta não é mais a nº 1 do reino – a identidade feminina da adolescente Branca de Neve já está em construção. E a obra se completa com um leve toque de machismo: assim como a Bela Adormecida, ela só conquista o príncipe semimorta – ou seja, inerte, quietinha, comportada, como se espera de uma boa moça.

Para maiores – Todo namorado tem um pouco de “espelho, espelho meu”, constantemente requisitado a confirmar que, sim, a parceira é a mais linda e, não, não existe mais ninguém. E que ele a ama. Pra sempre. De verdade.

Patinho Feio

Versão consagrada – Banido do ninho por deficiência estética, o Patinho enfrenta doses variadas de rejeição administradas por humanos e animais. Ao final, entre iguais, descobre que não era um pato feio, mas um lindo cisne.

Outra história – Diferentemente da maioria dos contos de fadas, compilados do folclore europeu, este é uma criação do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875).

Interpretação – O mérito do conto é mexer com o senso de deslocamento comum a toda criança. Todo mundo, em algum momento, sente que está no lugar errado, seja a família, seja a escola, a turma, o mundo. Por outro lado, permite aos pais viver na ficção o pavor de ter o filho surrupiado.

Para maiores – Alguns carregam o “complexo de patinho feio” para além da infância, achando-se eternamente rejeitados e deslocados. Especula-se inclusive que Andersen tenha feito o conto refletindo seus problemas de auto-estima.

João e o Pé de Feijão

Versão consagrada – Em vez de vender uma vaca como sua mãe pediu, João topa com um açougueiro/engenheiro genético e troca a mimosa por feijões mágicos. Leva um esporro, mas as sementes crescem até o céu, onde João encontra um gigante, de quem rouba vários tesouros. Durante perseguição ao meliante, o grandão cai lá de cima e morre. João e a mãe vivem ricos e felizes para sempre.

Outra história – Na primeira versão (1807), João sobe aos céus para vingar o pai, um cavaleiro morto pelo gigante.

Interpretação – Cavaleiro, açougueiro, gigante: todos são faces do mesmo pai. A trajetória de João reflete o processo natural (mais para homens, menos para mulheres) de assimilar características e desejos da figura paterna na construção da própria personalidade – inclusive se distanciando um pouco da mãe.

Para maiores – Há caçulas que passam a vida tratando irmãos mais velhos como gigantes – para o bem e para o mal.

O Príncipe Sapo

Versão consagrada – Uma princesa mimada maltrata um sapo e é obrigada a dividir cama e mesa com o batráquio. Depois de um tempo, ela acaba caindo pelos encantos do bicho. E, assim que os dois se beijam, num passe de mágica, ele vira um príncipe.

Outra história A versão original não tem beijo: o sapo se transforma após ser jogado na parede.

Interpretação – Diferentemente de histórias que terminam no casamento, esta e A Bela e a Fera lidam com o complexo “depois”. O nojinho da princesa com o ser viscoso pode simbolizar o incômodo das crianças com o sexo, ou simplesmente com relacionamentos fora da família – ambos redimidos ao final do conto.

Para maiores – Essa princesa é da linhagem das “megeras domadas”, que esperneiam, mas ao fim se submetem ao papel passivo reservado a elas.

Cinderela

Versão consagrada – A madrasta e as meias-irmãs de Cinderela lhe delegam o trabalho doméstico, na esperança de que o batente a embarangue. Mas chega o baile real. Repaginada por fadas, Cinderela brilha e conquista o príncipe, que guarda da noite um sapatinho de cristal, abandonado pela bela enquanto fugia em desabalada corrida. O príncipe sai calçando todas em busca da dona do sapato, até dar com o pé de Cinderela e ambos viverem felizes para sempre.

Outra história – Há versões em que as irmãs invejosas são cegadas por aves amigas de Cinderela.

Interpretação – Na superfície temos a fantasia dos adolescentes de que a sua vida não pode ser a real: existe um destino melhor, que lhe pertence e que lhe foi roubado, simbolizado na história pelo príncipe. “Essa história permite uma empatia imediata de qualquer filho, já que cada um se sentirá demasiado injustiçado e exigido, assim como pouco amado. Acreditamos que daí provém seu sucesso”, escrevem Diana e Mário Corso. “Onde houver irmãos, haverá desigualdade de fato ou a suposição de que ela existe.” Como costuma acontecer, a figura materna é multifacetada: é a mãe bondosa que foi, a madrasta exigente e a fada que inspira sonhos. Quanto àquele sapatinho, sim, ele pode ser interpretado como um traço de fetichismo, uma dica precoce de que alguns elementos podem valer muito no jogo da sedução.

Para maiores – “A história de Cinderela é constantemente reciclada, em séries como Sex and the City e boa parte das comédias românticas”, diz Maria Tatar, folclorista da Universidade Harvard e autora de Contos de Fadas: Edição Comentada e Ilustrada. A personagem também une fantasias masculinas geralmente conflitantes: a princesa para casar e a serviçal para… bem, servir. “Cinderela persiste na fantasia feminina. Independentemente da mulher forte e capaz que ela se mostre no mundo, Cinderela será a que, na intimidade, se disponha a brincar de esconde-esconde”, afirmam os autores de Fadas no Divã.

Ilustra: First snow… Tatiana Doronin

http://super.abril.com.br/cultura/verdadeira-moral-historia-447924.shtml